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Boletim Informativo da Associação Científica Campo Psicanalítico e do Fórum do Campo Lacaniano na Bahia
Ano II  Nº 9 -  Outubro de 2001

Estamos em outubro, tempo que aponta para a conclusão do programa de transmissão, pesquisa e clínica do Campo Psicanalítico que neste ano foi impulsionado pelo motor instigante e enigmático, "O Saber do Psicanalista". O saber foi privilegiado como fio condutor em toda pesquisa e debate que realizamos nos encontros das quartas que se desdobraram em O SABER DO PSICANALISTA, O SABER DO SONHO, O SABER DO SINTOMA E, O SABER DO OUTRO.
As discussões teóricas clareiam, orientam, balizam a clínica da psicanálise, que sabemos, é uma experiência, do particular, do inusitado de cada sujeito. Mas todo esse labor de pensar a psicanálise, dominar seus conceitos, debater a prática está aí o saber?
É inegável a importância deste trabalho, mas, não é ele complementar, talvez suplementar.

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Ao saber que advém do sujeito enquanto efeito de discurso? Isso que só se alcança na própria análise? O saber da sexualidade como uma falta, o saber da impossibilidade do amor fazer UM, na medida em que o próprio UM é uma dedução do vazio? Na teoria dos conjuntos o conjunto vazio tem esta propriedade curiosa. Ainda que sem elementos ele é elemento de qualquer conjunto. Portanto o vazio faz o UM. Não é este o saber essencial, aquele que de sujeito em análise passa a ocupar a posição de analista?
È pelos trilhos do saber que FURO 9 destaca pontos importantes de nossos recentes debates e, que chegaremos ao término do programa de 2001,com a JORNADA DO CAMPO PSICANALÍTICO .

programação-de-outubro-novembro

- Seminário do Campo Psicanalítico
Horário: quartas-feiras das 20 às 22 horas

O SABER DO PSICANALISTA
Comentário das intervenções de Lacan no Hospital Saint-Anne[1971-1972]
Coordenação : Jairo Gerbase
03/10/01-Intervenção de 04/05/72-Ida Freitas
07/11/01-Intervenção de 01/06/72-José Antonio Pereira da Silva

O SABER DO SONHO
Pesquisa sobre o saber em "A interpretação dos sonhos " de Freud.
Coordenação: Fátima Pereira
10/10/01 - Representação por símbolos nos sonhos, vol V.,cap.VI- Angelia Teixeira
14/11/01 – Atividade Intelectual nos sonhos ,vol V , cap.VI – Alda Menezes

O SABER DO SINTOMA
Debate sobre a clínica psicanalítica
Coordenação: José Antônio Pereira da Silva
17/10/01- delírio: trabalho de reconstrução do laço social
21/11/01- fetichismo: um léxico novo se justifica se descreve um fato novo – José Antonio Pereira da Silva

O SABER DO OUTRO
Interconexão com outros saberes científicos
Coordenação: Sônia Magalhães
24/10/01- Verdadeiro e falso na lógica da psicanálise – Ivete Villalba
28/11/01- A tradução do Hamlet e o Hamlet em tradução -Luiz Angélico da Costa

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CURSO: FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE
Horário:sextas-feiras das 17 às 19 horas
UNIDADE III - A TRANSFERENCIA

Coordenação: Angélia Teixeira
14 de setembro – 23 de novembro

SEMINÁRIO DE MEMBROS
CASOS CLÍNICOS DE FREUD E LACAN
Coordenação: José Antonio Pereira da Silva
Horário: 3ªfeira às 20 horas

.- Fórum do Campo Lacaniano
Tema-EM QUE LUGAR A PSICANÁLISE É TRANSMISSÍVEL
Coordenação: Silvana Pessoa
Horário: última segunda-feira de cada mês às 20 horas.

JORNADA DO CAMPO PSICANALÍTICO
O SABER DO PSICANALISTA
23 e 24 de NOVEMBRO
LOCAL:
FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO – UFBA
INFORMAÇÕES: SEDE DO CAMPO PSICANALÍTICO - TEL: (71) 245-5681


debates-do-seminário-do-campo-psicanalítico

O SABER DO PSICANALISTA
No dia 05 de setembro último, sob a coordenação de Jairo Gerbase, deu-se continuidade às intervenções mensais que vêm sendo realizadas em torno do Seminário "O Saber do Psicanalista". Na ocasião tivemos oportunidade de acompanhar os comentários de Fátima Pereira, a propósito da Lição nº 5, de 03/03/72.
A princípio, abordou-se a questão da lógica na episteme aristotélica, com o objetivo de melhor compreender as modificações aí introduzidas por Lacan. Num segundo momento, foram apresentadas as modificações no chamado "Quadro das Oposições" de Aristóteles. Demonstrou-se como Lacan manteve apenas a relação de contradição, estabelecendo como indecídível a relação que vigora entre a Proposição Universal Negativa (E) e a Proposição Particular Afirmativa (I). A partir dessas modificações pôde-se melhor compreender as relações entre o Impossível e o Contingente, enquanto referidos ao Real.
A seguir, a formação das "Fórmulas da Sexuação" foram apresentadas em Lacan em toda a singularidade que esse tipo de lógica implica. Pode-se ainda dimensionar a partir do exposto, os argumentos mais relevantes da lógica lacaniana, tais como, a idéia de "Lei". Para que esta tenha sentido e possa denotar algo é necessária uma existência primordial exterior ao campo da lei. Com isso, fica recusada a implicação da existência a partir da universalidade, tal como pensavam os filósofos.
Por outro lado, é a partir da existência desse "pelo menos um" (que escapa à lei) que a lei adquire qualquer sentido. Esse "pelo menos um" refere-se ao "Pai Simbólico", e o significante que o representa, o Nome do Pai – é, por sua vez, a castração. A castração refere-se a essa perda primordial, que coloca a estrutura em movimento.
A Função fálica (o falo é o Significante dessa falta) vai desempenhar papel crucial na definição da estrutura masculina e feminina. A partir daí, tem-se de um lado, uma relação necessária com a função fálica e de outro, uma relação contingente, porque a mulher é não – toda inscrita nessa relação.
No dia 05 de setembro último, sob a coordenação de Jairo Gerbase, deu-se continuidade às intervenções mensais que vêm sendo realizadas em torno do Seminário "O Saber do Psicanalista". Na ocasião tivemos oportunidade de acompanhar os comentários de Fátima Pereira, a propósito da Lição nº 5, de 03/03/72.
A princípio, abordou-se a questão da lógica na episteme aristotélica, com o objetivo de melhor compreender as modificações aí introduzidas por Lacan. Num segundo momento, foram apresentadas as modificações no chamado "Quadro das Oposições" de Aristóteles. Demonstrou-se como Lacan manteve apenas a relação de contradição, estabelecendo como indecídível a relação que vigora entre a Proposição Universal Negativa (E) e a Proposição Particular Afirmativa (I). A partir dessas modificações pôde-se melhor compreender as relações entre o Impossível e o Contingente, enquanto referidos ao Real.
A seguir, a formação das "Fórmulas da Sexuação" foram apresentadas em Lacan em toda a singularidade que esse tipo de lógica implica. Pode-se ainda dimensionar a partir do exposto, os argumentos mais relevantes da lógica lacaniana, tais como, a idéia de "Lei". Para que esta tenha sentido e possa denotar algo é necessária uma existência primordial exterior ao campo da lei. Com isso, fica recusada a implicação da existência a partir da universalidade, tal como pensavam os filósofos.
Por outro lado, é a partir da existência desse "pelo menos um" (que escapa à lei) que a lei adquire qualquer sentido. Esse "pelo menos um" refere-se ao "Pai Simbólico", e o significante que o representa, o Nome do Pai – é, por sua vez, a castração. A castração refere-se a essa perda primordial, que coloca a estrutura em movimento.
A Função fálica (o falo é o Significante dessa falta) vai desempenhar papel crucial na definição da estrutura masculina e feminina. A partir daí, tem-se de um lado, uma relação necessária com a função fálica e de outro, uma relação contingente, porque a mulher é não – toda inscrita nessa relação.

O SABER DO SONHO
Dando continuidade a nossa programação sobre os sonhos típicos abordados por Freud, Amélia Almeida sintetizou os principais aspectos por ele levantados quanto aos sonhos com exame.Freud os considerava como sonhos de angústia, sendo os mais relevantes aqueles que dizem respeito ao vestibular, por se tratar de um dos nossos exames mais árduos.A angústia de prestar exames do neurótico deve provavelmente, sua intensificação ao medo de castigos infantis sofridos pelas más ações na infância.Mais tarde os sonhos na vida adulta ocorrem sempre que algo impróprio foi feito e, esperamos ser punidos, "sempre que sentimos o fardo da responsabilidade", como diz ele. Esses sonhos trariam, portanto uma recriminação implícita. Ou ainda, numa outra perspectiva, expressariam um consolo, vez que, como observou Stekel, só ocorriam com pessoas que já haviam sido aprovadas nos exames a que se remetiam os sonhos.

Desdobrando e atualizando o texto de Freud, a comentadora pôde trazer algumas contribuições interessantes: 1) Que o ato repreensível seria o encontro com o gozo sexual fálico, masturbatório que, se de um lado ativaria a angustia – pelo temor do julgamento e castigo por esses atos, traria também a satisfação por ser um encontro bem sucedido com o próprio corpo, o que equivaleria a observação acatada por Freud, dos sonhos referirem-se a exames onde se foi aprovado, bem sucedido. 2) Que o exame do vestibular em especial, simboliza uma certa entrada no mundo adulto, onde está subjacente, mas nem por isto pouco potencializada, a questão da passagem do gozo do corpo próprio para o gozo do corpo do Outro e, como Freud mesmo observara, esse sonhos precediam "provas sexuais". 3) que toda prova implica algo da tiquê, momentos de encontro do real, encontros enquanto podendo faltar, que demandam um apelo ao simbólico e que suscitam angústia, momentos em especial de encontro com o Outro sexo. Finalizando, evoca uma passagem de Lacan no seminário 11: "Como pode o sonho, portador do desejo do sujeito, produzir o que faz ressurgir em repetição o trauma – senão o seu rosto mesmo, pelo menos a tela que o indique ainda por trás?... O real é para além do sonho que temos que procurá-lo, no que o sonho revestiu, envelopou, nos escondeu por trás da falta de representação, da qual lá só existe o lugar-tenente".

O SABER DO SINTOMA - COMPULSÃO: UM MODO DE DIZER EM ATO
Na noite de 15 de agosto, Silvana Pessoa, trabalhou o Transtorno Obsessivo Compulsivo dando um testemunho de como isso se manifesta na clínica, e as possíveis intervenções que o analista pode fazer. A característica principal deste transtorno,tratou a palestrante, e a tendência que esses pacientes tem de executar seus atos ritmicamente repetidas vezes durante o dia e a mantê-los isolados de outros atos. "Eles não são agradáveis. O indivíduo os vê prevenindo algum evento objetivamente improvável. Os pensamentos intrusivos que acontecerá algo ruim com amigos, familiares ou consigo próprios que os leva a atos repetitivos na tentativa ineficaz ou simbólica de afastar este perigo".
Ela citou o caso da paciente tratada por Freud, com cerca de trinta anos de idade, que sofria as mais graves manifestações obsessivas, executava, entre outros, os seguintes e notáveis atos obsessivos, muitas vezes por dia. "Esta paciente corria desde seu quarto até um outro quarto contíguo, assumia determinada posição ali, ao lado de uma mesa colocada no meio do aposento, soava a campainha chamando a empregada, dava-lhe algum recado ou a dispensava sem maiores explicações e, depois, corria de volta para seu quarto...tinha casado-se com um homem de muito mais idade do que ela, e, na noite de núpcias, ele ficou impotente."
Silvana menciona que Freud utilizou este caso para provar que o ato obsessivo tinha um sentido; parece ter sido uma representação, uma repetição daquela cena importante. "Porém ela não estava simplesmente repetindo a cena, ela estava continuando e ao mesmo tempo, corrigindo-a, consertando-a. Ela estava corrigindo uma coisa que fora tão desagradável aquela noite, a impotência dele." Vemos, portanto, uma via significante na repetição, porém a verdadeira repetição lacaniana, que ele isola do emaranhamento freudiano, é a que ele chama de "tiquê", o que repete sempre falha. Por isso que é preciso dizer que o que se repete é algo sempre novo, algo se encontra, ao acaso, que não está programado e por isso retorna, como hiato, que condiciona a falta da relação sexual. Quanto maior a resistência, mais a encenação, a repetição, substituirá a lembrança.

Como a análise que praticamos é lingüística, semântica e sintática, não fenomênica, trabalhamos com a homofonia do significante e com o sentido, ou melhor, a fuga de sentido. Morte, sexualidade, infertilidade... No tratamento adotamos a tática de manter na esfera psíquica todos os impulsos que o paciente obsessivo compulsivo gostaria de dirigir para a esfera motora. "Trabalhar na transferência, esperar e deixar as coisas seguirem seu curso, que não pode ser evitado, nem continuamente apresado", é a orientação que nos da Freud e o que nos lembra Silvana. Esta elaboração das resistências pode, na prática, revelar-se uma tarefa árdua para o sujeito em analise e uma prova de paciência para o analista. Todavia, trata-se da parte do trabalho que efetua maiores mudanças no paciente e que distingue o tratamento analítico de qualquer tipo de tratamento por sugestão.

O SABER DO OUTRO

- PSICANÁLISE E TOPOLOGIA
 

"Cada um entre outros" 

Com esta frase, iniciou Aurélio Souza, psicanalista, membro do Espaço Moebius, a sua contribuição ao Seminário do Campo Psicanalítico, em 27 de junho deste ano, em uma quarta feira dedicada ao "O Saber do Outro – interconexão com outros saberes científicos", em torno do tema - Psicanálise e Topologia.
Com a sua frase inicial, poderíamos dizer que o expositor situava a sua posição em relação às questões da transmissão, da pesquisa e da clínica no Campo da Psicanálise. E é assim, a partir deste "Cada um entre outros" que ele trará a sua contribuição.
O que muda com a Topologia? Aurélio Souza começará a expor a sua forma própria de conceber as relações entre a Psicanálise e a Topologia, a partir desta indagação. Fazendo uma leitura da obra de Freud, ali onde Lacan soube ler uma clínica do significante, ele vai empreender a sua abordagem do tema enfatizando a relação Psicanálise e Linguagem. Adverte para a importância que Lacan vai conferir aos discursos, lembrando que, para a psicanálise não se trata de um discurso com palavras mas, sim, de relações entre lugares.
Inúmeros foram os pontos trabalhados por Aurélio Souza ao longo de sua exposição: do toro à Fita de Moebius, passando pelo Cross-Cap e pela Garrafa de Klein, pelo nó borromeano, ele sempre buscou mostrar a importância de uma articulação com a prática clínica. E é assim, que ele vai abordar questões fundamentais para a psicanálise como a noção de estrutura, de sujeito e a disjunção entre Verdade e Saber, entre outros. Numa articulação ainda mais próxima da topologia com a clínica ele vai trabalhar a noção de corte no contexto da experiência psicanalítica.
Deste trajeto realizado com cuidado e rigor, extraímos um momento em que Aurélio Souza nos leva a revisitar Freud em Psicopatologia da vida cotidiana, ali onde ele vai trabalhar O esquecimento de nomes próprios trazendo o caso Signorelli. Com isto, ele nos remeterá, também, a Lacan em um momento em que este faz uma leitura instigante do Signorelli de Freud.
No contexto do seu trabalho sobre o esquecimento do nome Signorelli, diz Freud:
" eu queria esquecer algo; havia recalcado algo. É verdade que não queria esquecer o nome do artista de Orvieto, mas sim outra coisa – essa outra coisa, contudo, conseguiu situar-se numa conexão associativa com seu nome, tanto que meu ato de vontade errou o alvo e esqueci uma coisa contra a minha vontade, quando queria esquecer intencionalmente a outra.
Ao trazer o caso Signorelli, Aurélio Souza vai lembrar que Freud mudara o seu nome de Sigismund para Sigmund. Ele dirá, então, "que ninguém muda o seu nome sem pagar um preço." Conforme Lacan, a partir da clínica do significante, pode-se dizer que é o Sig que determina o esquecimento de Freud.
Na sua aula de seis de janeiro de 1965, em Problemas Cruciais para a Psicanálise, Lacan dirá que não é a palavra que é esquecida (o que nos dá uma oportunidade para distinguir palavra e significante) O que foi esquecido – unterdrückt, quer dizer, suprimido, em lugar de recalcado – verdrängt, não foi uma palavra, um nome próprio, exatamente - Signorelli, mas, sim, um significante - Sig. Esta seria a diferença entre um significante e uma palavra. Por contigüidade, isto é, metonímia, Sig se acopla a Signorelli e a Sigismund. Assim como a reevocação de Boticelli é uma distorção – Entstellung, o próprio Signorelli também é uma deformação.
O trabalho apresentado por Aurélio Souza nesta Quarta do Saber do Outro nos incita a perseverar no estudo dos problemas cruciais para a psicanálise.

.- A ESTÉTICA DO MAL-ESTAR EM NELSON RODRIGUES
 " A estética do mal-estar em Nelson Rodrigues" – foi o tema da contribuição de Véra Motta - psicanalista, Professora da Universidade do Estado da Bahia, Mestre em Linguística pelo Instituto de Letras da UFBA - ao Seminário do Campo Psicanalítico, em 22 de agosto p.p., no quadro do Seminário O Saber do Outro – interconexão com outros saberes científicos.
" Investigar na obra de um autor aqueles elementos que poderiam confirmar um certo emprego do que chamamos mal-estar com Freud, ou seja, uma insatisfação constitutiva do humano proveniente, em sua maior parte, de três fontes: a hiperpotência da natureza; a fragilidade de nosso corpo; e a insuficiência das normas que regulam os vínculos entre os homens em família, estado e sociedade " ( Amin, 1999).
Com estas palavras Véra Motta situou a sua proposta de trabalho acrescentando que nesta sua contribuição ao Campo Psicanalítico se dispunha a falar, também, da empreitada dificílima e árdua que é a construção de uma tese.
Como forma de empreender esta viagem, esta travessia, ela afirma ter recorrido ao expediente de instituir um Diário de Bordo, (à semelhança de Thomas Mann em sua "Viagem marítima com Dom Quixote"). De início, tomou como fio condutor da sua investigação em torno da obra de Nelson Rodrigues, o humor. Assim fazendo, a partir da leitura de crônicas reunidas em "A vida como ela é ", procurou verificar as diversas formas de representação do cômico, identificando as diferentes estratégias de realização literária, suas funções e dimensões na literatura com as produções do inconsciente. Deste momento inicial surgiu o seu primeiro trabalho – " A representação do cômico em – A vida como ela é... de Nelson Rodrigues" .
O humor (...) o mais bravo e o mais ousado conquistador no reino do humano (...) - (Mann,1998), a levou ao Mal-estar da civilização de Freud. Tomando esta referência freudiana, Véra Motta vai trabalhar o mal-estar na obra rodrigueana. O seu Diário de Bordo, datado de 25 de junho de 2000, registra a seguinte passagem: a obra de Nelson Rodrigues denuncia o mal-estar da civilização, ao invés de amenizá-la, como outras barreiras que o homem erige contra o sofrimento. Nela não se renuncia ao mal-estar; ela se nutre disso e, por isso mesmo, é datada , um produto da cultura, brasileira, contemporânea.
Tomando o que vai chamar Flores da obsessão - alguns temas que encontram na obra de Nelson Rodrigues, um emprego de reiteração, de repetição - Véra Motta elege quatro e, em torno deles, ela reúne alguns fragmentos da obra rodrigueana:
A morte - é uma tema que dá a Nelson Rodrigues a oportunidade de desfiar algumas de sua máximas: " Na vida urbana o homem mata e se mata . Eis o que eu queria dizer: - também homicida e suicida foi o Carnaval de 1919, logo depois da espanhola".
O erotismo
- em todas as modalidades de arte têm importância especialmente grande os símbolos eróticos. Por trás da imagem artística aparentemente mais inocente e comum, aparece, quase sempre o objeto erótico." Para morrer, Marilyn despiu-se como na folhinha. E morreu nua. Morreu folhinha." ( 1999;43).
O corpo dissoluto
- uma das fontes apontadas por Freud como origem do mal-estar é a dissolução do corpo, flor de obsessão que ganha, no estilo peculiaríssimo do escritor Nelson Rodrigues, uma dimensão às vezes cômica, às vezes trágica. "Trato a minha úlcera a pires de leite como se trata uma gata de luxo" ( 1999:40).

A palavra impudente e derrisória
- "o emprego da linguagem na obra rodrigueana se dobra sobre o signo verbal, e se Nelson comenta, insistentemente, sobre a palavra, é justamente para revertê-la, dilacerá-la, gangrená-la, para resgatar, sobre seu lado esvaziado e morto, a palavra ritualística.". Tomando estas considerações de Silvia Simone Anspach, Véra Motta vai dizer que o uso de palavras chulas é um artifício pouco usado por Nelson Rodrigues, porquanto o emprego de repetições, de elipses, de síncopes, em máximas ou em silogismos retóricos , aponta para a derrisão, dispensando o recurso à palavra degradada." Não quero exagerar, mas já falei umas cinquenta vezes sobre o palavrão(...). esse tema devia estar murcho como laranja chupada. Pelo contrário. Há sempre alguém que me atropela e quer saber qual a minha opinião, etc. etc.. Faço uma exigência. : - ‘Você só vai publicar o que eu disser, textualmente. Toma nota de tudo, direitinho. Está combinado? ‘Resposta: ‘Claro. E não mudo nada. Pode deixar. ‘Nova pausa. Começo: - ‘Põe aí‘. E continuo: - ‘Todas as palavras são rigorosamente lindas. Nós é que as corrompemos‘"( 1977;461)
No final de sua exposição, afirma Véra Motta que mais que " A estética do mal-estar em Nelson Rodrigues"- sua proposta inicial – o que ela pretende investigar é " A erótica do mal-estar em Nelson Rodrigues.——


um-cartel-por que ?

Dando continuidade ao comentário de Jairo Gerbase sobre as três perguntas que Lacan propõe sobre o cartel na aula de 14 de abril de 1975 do Seminário RSI, transcrevemos a terceira.

3] Não é estranho que, de identificação, Freud só nos enuncie três e que nestas três haja todo o necessário para que se leia meu nó borromeano? Assim ele designa a consistência, que é a base, o tríquetro, que Freud chamou de traço unário. É enquanto o Nome-do-Pai é o que faz nó em se tratando do tríquetro, é enquanto o tríquetro ex-siste que pode haver identificação a quê? Ao que está no centro de todo nó borromeano, onde situei o desejo, desejo que também é uma possibilidade de identificação. No lugar onde situei o objeto a, como sendo aquele que domina aquilo que Freud torna a terceira possibilidade de identificação, o desejo da histérica.

 Voltemos ao terceiro modo de identificação, a identificação ao traço unário, que aqui Lacan vai chamar de identificação ao desejo da histérica e que deve ser distinguida do que ele chamou acima de identificação de participação histérica. Este é o mais freqüente e particular modo de formação do sintoma, a identificação que não leva em conta a relação de objeto. É o caso clássico da colegial. O mecanismo é o da identificação baseada na possibilidade ou desejo de colocar-se na mesma situação. A identificação é neste caso o signo inconsciente de um ponto de congruência entre os dois sujeitos.
Freud disse que o laço mútuo existente entre os membros de um grupo é da natureza de uma identificação desse tipo, baseada numa importante qualidade emocional comum, e podemos suspeitar que essa qualidade comum reside na natureza do laço com o líder.
Não se poderia pensar um modelo como o - RSI - que recobre muito bem o universo dos instrumentais que o homem pode lançar mão para abordar a realidade - o imaginário, o simbólico (destaco o real como o campo da realidade que se tem de abordar) - sem um modo de amarração solidária. Por isso, na tentativa de dar consistência ao sistema, Lacan introduziu essa noção de Nome-do-Pai como função simbólica de enodamento.
Há mais um nó, que Freud chamou de realidade psíquica, de complexo de Édipo, e que Lacan passou a chamar de sintoma, dado que sua função é também a de enodamento. Isso nos leva a dizer que a experiência analítica não é a da fantasia, mas a do sintoma. O sintoma transmite o que não anda bem no campo do real. Diria o mesmo do imaginário e do simbólico. É meu modo de fazê-los equivalentes. O sintoma é a coisa mais interessante de cada um de nós, é o nosso nome, é o outro nome da realidade psíquica e depende de uma estrutura da qual o Nome-do-Pai é um termo incondicionado, absoluto.
Quando Freud tenta entender a função de interdição atribuída ao Pai, recorre ao tríquetro, essa figura que desenhamos com três espingardas apoiando-se uma nas outras. Lacan desenha a partir do tríquetro o nó borromeano e introduz um quarto termo, como condição necessária da eliminação da propriedade borromeana do nó. Do modo com está enodado, por cima, por baixo, o nó do sintoma elimina a propriedade borromeana, aquela que implica em desfazer o nó se se corta qualquer um dos seus elos.
A eqüivalência entre sintoma e pai reside basicamente aí, em ser um operador que serve para dar consistência ao sistema, no sentido de que cada termo, imaginário, simbólico e real colaboram um com o outro a fim de dar solidariedade ao sistema. Isso se torna possível a partir da introdução do quarto elemento que é o Nome-do-Pai. Os três registros, real, simbólico e imaginário, não se sustentam apenas por serem colocados uns sobre os outros. É preciso que se acrescente um nó suplementar, um quarto nó, porque sendo este um sistema borromeano, que consiste, como se disse acima, em uma propriedade borromeana, torna-se um sistema instável e uma vez tomado como modelo do pequeno grupo denominado de cartel, se deve a ele acrescentar mais um termo, que Lacan propôs chamar de Mais-Um, que o situou no mesmo lugar do objeto a, mas que se pode também situá-lo como um quarto nó, que nesse caso se denominaria de sintoma.



MEMBROS

Alda Menezes
2485657 - 91266657
Amélia Almeida

2354123 - 99690726
Angélia Teixeira

2354245 - 99875043
Fátima Pereira
2375890 - 91557988
Ida Freitas
2452305 - 91145558
Jairo Gerbase
2473874 - 99870227
José Antônio Pereira da Silva 3717516 - 99793612
Myrian Cardoso
2487052 - 91447887
Silvana Pessoa
2353316 - 99677760
Sônia Magalhães
2616330 - 91217900


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ASSOCIAÇÃO CIENTÍFICA CAMPO PSICANALÍTICO E FÓRUM DO CAMPO LACANIANO NA BAHIA

Avenida Reitor Miguel Calmon 1210-Centro médico do Vale  Sala 110
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