O SABER DO PSICANALISTA
No dia 05 de setembro último, sob a coordenação de Jairo Gerbase, deu-se
continuidade às intervenções mensais que vêm sendo realizadas em torno do Seminário
"O Saber do Psicanalista". Na ocasião tivemos oportunidade de acompanhar os
comentários de Fátima Pereira, a propósito da Lição nº 5, de 03/03/72.
A princípio, abordou-se a questão da lógica na episteme aristotélica, com o objetivo
de melhor compreender as modificações aí introduzidas por Lacan. Num segundo momento,
foram apresentadas as modificações no chamado "Quadro das Oposições" de
Aristóteles. Demonstrou-se como Lacan manteve apenas a relação de contradição,
estabelecendo como indecídível a relação que vigora entre a Proposição Universal
Negativa (E) e a Proposição Particular Afirmativa (I). A partir dessas modificações
pôde-se melhor compreender as relações entre o Impossível e o Contingente, enquanto
referidos ao Real.
A seguir, a formação das "Fórmulas da Sexuação" foram apresentadas em Lacan
em toda a singularidade que esse tipo de lógica implica. Pode-se ainda dimensionar a
partir do exposto, os argumentos mais relevantes da lógica lacaniana, tais como, a idéia
de "Lei". Para que esta tenha sentido e possa denotar algo é necessária uma
existência primordial exterior ao campo da lei. Com isso, fica recusada a implicação da
existência a partir da universalidade, tal como pensavam os filósofos.
Por outro lado, é a partir da existência desse "pelo menos um" (que escapa à
lei) que a lei adquire qualquer sentido. Esse "pelo menos um" refere-se ao
"Pai Simbólico", e o significante que o representa, o Nome do Pai é,
por sua vez, a castração. A castração refere-se a essa perda primordial, que coloca a
estrutura em movimento.
A Função fálica (o falo é o Significante dessa falta) vai desempenhar papel crucial na
definição da estrutura masculina e feminina. A partir daí, tem-se de um lado, uma
relação necessária com a função fálica e de outro, uma relação contingente, porque
a mulher é não toda inscrita nessa relação.
No dia 05 de setembro último, sob a coordenação de Jairo Gerbase, deu-se continuidade
às intervenções mensais que vêm sendo realizadas em torno do Seminário "O Saber
do Psicanalista". Na ocasião tivemos oportunidade de acompanhar os comentários de
Fátima Pereira, a propósito da Lição nº 5, de 03/03/72.
A princípio, abordou-se a questão da lógica na episteme aristotélica, com o objetivo
de melhor compreender as modificações aí introduzidas por Lacan. Num segundo momento,
foram apresentadas as modificações no chamado "Quadro das Oposições" de
Aristóteles. Demonstrou-se como Lacan manteve apenas a relação de contradição,
estabelecendo como indecídível a relação que vigora entre a Proposição Universal
Negativa (E) e a Proposição Particular Afirmativa (I). A partir dessas modificações
pôde-se melhor compreender as relações entre o Impossível e o Contingente, enquanto
referidos ao Real.
A seguir, a formação das "Fórmulas da Sexuação" foram apresentadas em Lacan
em toda a singularidade que esse tipo de lógica implica. Pode-se ainda dimensionar a
partir do exposto, os argumentos mais relevantes da lógica lacaniana, tais como, a idéia
de "Lei". Para que esta tenha sentido e possa denotar algo é necessária uma
existência primordial exterior ao campo da lei. Com isso, fica recusada a implicação da
existência a partir da universalidade, tal como pensavam os filósofos.
Por outro lado, é a partir da existência desse "pelo menos um" (que escapa à
lei) que a lei adquire qualquer sentido. Esse "pelo menos um" refere-se ao
"Pai Simbólico", e o significante que o representa, o Nome do Pai é,
por sua vez, a castração. A castração refere-se a essa perda primordial, que coloca a
estrutura em movimento.
A Função fálica (o falo é o Significante dessa falta) vai desempenhar papel crucial na
definição da estrutura masculina e feminina. A partir daí, tem-se de um lado, uma
relação necessária com a função fálica e de outro, uma relação contingente, porque
a mulher é não toda inscrita nessa relação.
O
SABER DO SONHO
Dando continuidade a nossa programação sobre os sonhos típicos abordados por Freud,
Amélia Almeida sintetizou os principais aspectos por ele levantados quanto aos sonhos com
exame.Freud os considerava como sonhos de angústia, sendo os mais relevantes aqueles que
dizem respeito ao vestibular, por se tratar de um dos nossos exames mais árduos.A
angústia de prestar exames do neurótico deve provavelmente, sua intensificação ao medo
de castigos infantis sofridos pelas más ações na infância.Mais tarde os sonhos na vida
adulta ocorrem sempre que algo impróprio foi feito e, esperamos ser punidos, "sempre
que sentimos o fardo da responsabilidade", como diz ele. Esses sonhos trariam,
portanto uma recriminação implícita. Ou ainda, numa outra perspectiva, expressariam um
consolo, vez que, como observou Stekel, só ocorriam com pessoas que já haviam sido
aprovadas nos exames a que se remetiam os sonhos.
Desdobrando e atualizando o texto de
Freud, a comentadora pôde trazer algumas contribuições interessantes: 1) Que o ato
repreensível seria o encontro com o gozo sexual fálico, masturbatório que, se de um
lado ativaria a angustia pelo temor do julgamento e castigo por esses atos, traria
também a satisfação por ser um encontro bem sucedido com o próprio corpo, o que
equivaleria a observação acatada por Freud, dos sonhos referirem-se a exames onde se foi
aprovado, bem sucedido. 2) Que o exame do vestibular em especial, simboliza uma certa
entrada no mundo adulto, onde está subjacente, mas nem por isto pouco potencializada, a
questão da passagem do gozo do corpo próprio para o gozo do corpo do Outro e, como Freud
mesmo observara, esse sonhos precediam "provas sexuais". 3) que toda prova
implica algo da tiquê, momentos de encontro do real, encontros enquanto podendo faltar,
que demandam um apelo ao simbólico e que suscitam angústia, momentos em especial de
encontro com o Outro sexo. Finalizando, evoca uma passagem de Lacan no seminário 11:
"Como pode o sonho, portador do desejo do sujeito, produzir o que faz ressurgir em
repetição o trauma senão o seu rosto mesmo, pelo menos a tela que o indique
ainda por trás?... O real é para além do sonho que temos que procurá-lo, no que o
sonho revestiu, envelopou, nos escondeu por trás da falta de representação, da qual lá
só existe o lugar-tenente".
O SABER DO
SINTOMA - COMPULSÃO: UM MODO DE DIZER EM ATO
Na noite de 15 de agosto, Silvana
Pessoa, trabalhou o Transtorno Obsessivo Compulsivo dando um testemunho de como isso se
manifesta na clínica, e as possíveis intervenções que o analista pode fazer. A
característica principal deste transtorno,tratou a palestrante, e a tendência que esses
pacientes tem de executar seus atos ritmicamente repetidas vezes durante o dia e a
mantê-los isolados de outros atos. "Eles não são agradáveis. O indivíduo os vê
prevenindo algum evento objetivamente improvável. Os pensamentos intrusivos que
acontecerá algo ruim com amigos, familiares ou consigo próprios que os leva a atos
repetitivos na tentativa ineficaz ou simbólica de afastar este perigo".
Ela citou o caso da paciente tratada
por Freud, com cerca de trinta anos de idade, que sofria as mais graves manifestações
obsessivas, executava, entre outros, os seguintes e notáveis atos obsessivos, muitas
vezes por dia. "Esta paciente corria desde seu quarto até um outro quarto contíguo,
assumia determinada posição ali, ao lado de uma mesa colocada no meio do aposento, soava
a campainha chamando a empregada, dava-lhe algum recado ou a dispensava sem maiores
explicações e, depois, corria de volta para seu quarto...tinha casado-se com um homem de
muito mais idade do que ela, e, na noite de núpcias, ele ficou impotente."
Silvana menciona que Freud utilizou este caso para provar que o ato obsessivo tinha um
sentido; parece ter sido uma representação, uma repetição daquela cena importante.
"Porém ela não estava simplesmente repetindo a cena, ela estava continuando e ao
mesmo tempo, corrigindo-a, consertando-a. Ela estava corrigindo uma coisa que fora tão
desagradável aquela noite, a impotência dele." Vemos, portanto, uma via
significante na repetição, porém a verdadeira repetição lacaniana, que ele isola do
emaranhamento freudiano, é a que ele chama de "tiquê", o que repete sempre
falha. Por isso que é preciso dizer que o que se repete é algo sempre novo, algo se
encontra, ao acaso, que não está programado e por isso retorna, como hiato, que
condiciona a falta da relação sexual. Quanto maior a resistência, mais a encenação, a
repetição, substituirá a lembrança.
Como a análise que praticamos é
lingüística, semântica e sintática, não fenomênica, trabalhamos com a homofonia do
significante e com o sentido, ou melhor, a fuga de sentido. Morte, sexualidade,
infertilidade... No tratamento adotamos a tática de manter na esfera psíquica todos os
impulsos que o paciente obsessivo compulsivo gostaria de dirigir para a esfera motora.
"Trabalhar na transferência, esperar e deixar as coisas seguirem seu curso, que não
pode ser evitado, nem continuamente apresado", é a orientação que nos da Freud e o
que nos lembra Silvana. Esta elaboração das resistências pode, na prática, revelar-se
uma tarefa árdua para o sujeito em analise e uma prova de paciência para o analista.
Todavia, trata-se da parte do trabalho que efetua maiores mudanças no paciente e que
distingue o tratamento analítico de qualquer tipo de tratamento por sugestão.
O SABER DO
OUTRO
- PSICANÁLISE E TOPOLOGIA
"Cada
um entre outros"
Com esta frase, iniciou Aurélio Souza,
psicanalista, membro do Espaço Moebius, a sua contribuição ao Seminário do Campo
Psicanalítico, em 27 de junho deste ano, em uma quarta feira dedicada ao "O Saber
do Outro interconexão com outros saberes científicos", em torno do tema
- Psicanálise e Topologia.
Com a sua frase inicial, poderíamos dizer que o expositor situava a sua posição em
relação às questões da transmissão, da pesquisa e da clínica no Campo da
Psicanálise. E é assim, a partir deste "Cada um entre outros" que ele
trará a sua contribuição.
O que muda com a Topologia? Aurélio Souza começará a expor a sua forma
própria de conceber as relações entre a Psicanálise e a Topologia, a partir desta
indagação. Fazendo uma leitura da obra de Freud, ali onde Lacan soube ler uma
clínica do significante, ele vai empreender a sua abordagem do tema enfatizando a
relação Psicanálise e Linguagem. Adverte para a importância que Lacan vai conferir aos
discursos, lembrando que, para a psicanálise não se trata de um discurso com palavras
mas, sim, de relações entre lugares.
Inúmeros foram os pontos trabalhados por Aurélio Souza ao longo de sua exposição: do
toro à Fita de Moebius, passando pelo Cross-Cap e pela Garrafa de Klein, pelo nó
borromeano, ele sempre buscou mostrar a importância de uma articulação com a prática
clínica. E é assim, que ele vai abordar questões fundamentais para a psicanálise como
a noção de estrutura, de sujeito e a disjunção entre Verdade e Saber, entre outros.
Numa articulação ainda mais próxima da topologia com a clínica ele vai trabalhar a
noção de corte no contexto da experiência psicanalítica.
Deste trajeto realizado com cuidado e rigor, extraímos um momento em que Aurélio Souza
nos leva a revisitar Freud em Psicopatologia da vida cotidiana, ali onde ele vai
trabalhar O esquecimento de nomes próprios trazendo o caso Signorelli. Com
isto, ele nos remeterá, também, a Lacan em um momento em que este faz uma leitura
instigante do Signorelli de Freud.
No contexto do seu trabalho sobre o esquecimento do nome Signorelli, diz Freud:
" eu queria esquecer algo; havia recalcado algo. É verdade que não queria
esquecer o nome do artista de Orvieto, mas sim outra coisa essa outra coisa,
contudo, conseguiu situar-se numa conexão associativa com seu nome, tanto que meu ato de
vontade errou o alvo e esqueci uma coisa contra a minha vontade, quando queria esquecer
intencionalmente a outra.
Ao trazer o caso Signorelli, Aurélio Souza vai lembrar que Freud mudara o seu nome
de Sigismund para Sigmund. Ele dirá, então, "que ninguém muda o
seu nome sem pagar um preço." Conforme Lacan, a partir da clínica do
significante, pode-se dizer que é o Sig que determina o esquecimento de Freud.
Na sua aula de seis de janeiro de 1965, em Problemas Cruciais para a Psicanálise,
Lacan dirá que não é a palavra que é esquecida (o que nos dá uma oportunidade para
distinguir palavra e significante) O que foi esquecido unterdrückt,
quer dizer, suprimido, em lugar de recalcado verdrängt, não foi uma
palavra, um nome próprio, exatamente - Signorelli, mas, sim, um significante -
Sig. Esta seria a diferença entre um significante e uma palavra. Por contigüidade,
isto é, metonímia, Sig se acopla a Signorelli e a Sigismund. Assim
como a reevocação de Boticelli é uma distorção Entstellung, o
próprio Signorelli também é uma deformação.
O trabalho apresentado por Aurélio Souza nesta Quarta do Saber do Outro nos incita
a perseverar no estudo dos problemas cruciais para a psicanálise.
.- A
ESTÉTICA DO MAL-ESTAR EM NELSON RODRIGUES
" A estética do
mal-estar em Nelson Rodrigues" foi o tema da contribuição de Véra Motta -
psicanalista, Professora da Universidade do Estado da Bahia, Mestre em Linguística pelo
Instituto de Letras da UFBA - ao Seminário do Campo Psicanalítico, em 22 de agosto p.p.,
no quadro do Seminário O Saber do Outro interconexão com outros saberes
científicos.
" Investigar na obra de um autor
aqueles elementos que poderiam confirmar um certo emprego do que chamamos mal-estar com
Freud, ou seja, uma insatisfação constitutiva do humano proveniente, em sua maior parte,
de três fontes: a hiperpotência da natureza; a fragilidade de nosso corpo; e a
insuficiência das normas que regulam os vínculos entre os homens em família, estado e
sociedade " ( Amin, 1999).
Com estas palavras Véra Motta situou a
sua proposta de trabalho acrescentando que nesta sua contribuição ao Campo
Psicanalítico se dispunha a falar, também, da empreitada dificílima e árdua que é a
construção de uma tese.
Como forma de empreender esta viagem,
esta travessia, ela afirma ter recorrido ao expediente de instituir um Diário de Bordo,
(à semelhança de Thomas Mann em sua "Viagem marítima com Dom Quixote"). De
início, tomou como fio condutor da sua investigação em torno da obra de Nelson
Rodrigues, o humor. Assim fazendo, a partir da leitura de crônicas reunidas em "A
vida como ela é ", procurou verificar as diversas formas de representação do
cômico, identificando as diferentes estratégias de realização literária, suas
funções e dimensões na literatura com as produções do inconsciente. Deste momento
inicial surgiu o seu primeiro trabalho " A representação do cômico em
A vida como ela é... de Nelson Rodrigues" .
O humor (...) o mais bravo e o mais
ousado conquistador no reino do humano (...) - (Mann,1998), a levou ao Mal-estar da
civilização de Freud. Tomando esta referência freudiana, Véra Motta vai trabalhar
o mal-estar na obra rodrigueana. O seu Diário de Bordo, datado de 25 de junho de 2000,
registra a seguinte passagem: a obra de Nelson Rodrigues denuncia o mal-estar da
civilização, ao invés de amenizá-la, como outras barreiras que o homem erige contra o
sofrimento. Nela não se renuncia ao mal-estar; ela se nutre disso e, por isso mesmo, é
datada , um produto da cultura, brasileira, contemporânea.
Tomando o que vai chamar Flores da
obsessão - alguns temas que encontram na obra de Nelson Rodrigues, um emprego de
reiteração, de repetição - Véra Motta elege quatro e, em torno deles, ela reúne
alguns fragmentos da obra rodrigueana:
A morte - é uma tema que
dá a Nelson Rodrigues a oportunidade de desfiar algumas de sua máximas: " Na
vida urbana o homem mata e se mata . Eis o que eu queria dizer: - também homicida e
suicida foi o Carnaval de 1919, logo depois da espanhola".
O erotismo - em todas as modalidades de arte têm importância especialmente
grande os símbolos eróticos. Por trás da imagem artística aparentemente mais inocente
e comum, aparece, quase sempre o objeto erótico." Para morrer, Marilyn despiu-se
como na folhinha. E morreu nua. Morreu folhinha." ( 1999;43).
O corpo dissoluto - uma das fontes apontadas por Freud como origem do mal-estar
é a dissolução do corpo, flor de obsessão que ganha, no estilo peculiaríssimo do
escritor Nelson Rodrigues, uma dimensão às vezes cômica, às vezes trágica.
"Trato a minha úlcera a pires de leite como se trata uma gata de luxo" (
1999:40).
A palavra impudente e derrisória
- "o emprego da linguagem na obra rodrigueana se dobra sobre o signo verbal, e se
Nelson comenta, insistentemente, sobre a palavra, é justamente para revertê-la,
dilacerá-la, gangrená-la, para resgatar, sobre seu lado esvaziado e morto, a palavra
ritualística.". Tomando estas considerações de Silvia Simone Anspach, Véra
Motta vai dizer que o uso de palavras chulas é um artifício pouco usado por Nelson
Rodrigues, porquanto o emprego de repetições, de elipses, de síncopes, em máximas ou
em silogismos retóricos , aponta para a derrisão, dispensando o recurso à palavra
degradada." Não quero exagerar, mas já falei umas cinquenta vezes sobre o
palavrão(...). esse tema devia estar murcho como laranja chupada. Pelo contrário. Há
sempre alguém que me atropela e quer saber qual a minha opinião, etc. etc.. Faço uma
exigência. : - Você só vai publicar o que eu disser, textualmente. Toma nota de
tudo, direitinho. Está combinado? Resposta: Claro. E não mudo nada. Pode
deixar. Nova pausa. Começo: - Põe aí. E continuo: - Todas as
palavras são rigorosamente lindas. Nós é que as corrompemos"( 1977;461)
No final de sua exposição, afirma
Véra Motta que mais que " A estética do mal-estar em Nelson Rodrigues"-
sua proposta inicial o que ela pretende investigar é " A erótica do
mal-estar em Nelson Rodrigues. |