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Boletim Informativo da Associação Científica Campo Psicanalítico e do Fórum do Campo Lacaniano na Bahia
Ano II  Nº 8 -  Agosto de 2001

Estamos depois de breve recesso, dando continuidade aos encontros das noites de quarta , momento em que realizamos o SEMINÁRIO DO CAMPO PSICANALÍTICO .

Ao reunir a síntese de algumas apresentações ocorridas no primeiro semestre deste ano para a confecção de FURO 8 , percebe-se como o saber , enquanto termo na estrutura discursiva , destaca-se como eixo principal dos trabalhos , que mostram-se em sua riqueza e diversidade , estimulantes no sentido de se buscar um aprofundamento dos temas tratados e debatidos entre nós .

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FURO 8 traz a programação de agosto e setembro e pitadas de SABER para despertar o apetite daqueles que nos acompanham e dos que desejam se aproximar dos trabalhos do CAMPO PSICANALÍTICO.

Aproveitamos para comunicar desde já, que como fechamento do programa deste ano estaremos realizando em 23 e 24 de novembro de 2001 a JORNADA DO CAMPO PSICANALÍTICO .

programação-de-agosto-setembro

- Seminário do Campo Psicanalítico
Horário: quartas-feiras das 20 às 22 horas

O SABER DO PSICANALISTA
Comentário das intervenções de Lacan no Hospital Saint-Anne[1971-1972]
Coordenação : Jairo Gerbase
01/08/01-Intervenção de 03/02/72-Angélia Teixeira

05/09/01-Intervenção de 03/03/72-Fátima Pereira

O SABER DO SONHO
Pesquisa sobre o saber em "A interpretação dos sonhos " de Freud.
Coordenação: Fátima Pereira
08/08/01-Sonhos com exames , vol.IV,cap.V-Amélia Almeida
12/09/01-Outros sonhos típicos,vol. IV,cap.V-Myrian Cardoso

O SABER DO SINTOMA
Debate sobre a clínica psicanalítica
Coordenação: José Antônio Pereira da Silva
15/08/01-compulsão: um modo de dizer em ato-Silvana Pessoa
19/09/01-alucinação: ouvir e falar são o direito e o avesso do significante-Jairo Gerbase

O SABER DO OUTRO
Interconexão com outros saberes científicos
Coordenação: Sônia Magalhães
22/08/01-A estética do mal-estar em Nelson Rodrigues-Véra Motta
26/09/01-Personagens shakespearianos-Luis Angélico da Costa

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CURSO: FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE
Horário:sextas-feiras das 17 às 19 horas
UNIDADE II O INCONSCIENTE
Coordenação:Sônia Magalhães
18/05 à 24/08

UNIDADE III A TRANSFERENCIA
Coordenação: Angélia Teixeira
14 de setembro – 23 de novembro

SEMINÁRIO DE MEMBROS
CASOS CLÍNICOS DE FREUD E LACAN
Coordenação: José Antonio Pereira da Silva
Horário: 3ªfeira às 20 horas

.- Fórum do Campo Lacaniano
Tema-EM QUE LUGAR A PSICANÁLISE É TRANSMISSÍVEL
Coordenação: Silvana Pessoa
Horário: última segunda-feira de cada mês às 20 horas.

Os membros do Fórum do Campo Lacaniano na Bahia vêm realizando seus últimos encontros em torno da votação de "Princípios diretivos para uma Escola orientada pelos ensinamentos de Sigmund Freud e Jacques Lacan", votação que chega a seu término.

Informamos que em 14, 15 e 16 de dezembro de 2001, acontecerá o Encontro Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano em Paris.

JORNADA DO CAMPO PSICANALÍTICO
O SABER DO PSICANALISTA
23 e 24 de NOVEMBRO


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O SABER DO PSICANALISTA
HÁ UM MURO

"Há um muro, [a]muro. O que acontece quando estamos dentro dos muros? Do que se trata quando falamos aos muros? Não temos nenhum testemunho, mas em relação ao vazio temos uma grande idéia. Lacan trata desta questão na conferência de 6 de janeiro de 1972 no Hospital Sainte-Anne, na qual fala aos psiquiatras, àqueles que habitam os muros. Enquanto chefe de clínica ele "dava a voz aos pacientes para enviá-las às paredes já que sabia que o aprendizado não era imediato".
Nesta conferência ele analisa um verso do poeta Antoine Tudal, extraido do almanaque "Paris no ano 2000", que tal como um ritornelo se ocupa do que há entre o homem e a mulher - o amor, do que há entre o homem e o amor - um mundo [território antes ocupado pela mulher] e do que há entre o homem e o mundo - um muro.
Muro quer dizer reviramento, junção entre o saber e a verdade, lugar da castração. Isso é demonstrado por vias lógicas e topológicas, neste caso, por intermédio da garrafa de Klein: tudo que resulta da relação do homem e a mulher, sua posição e seu saber, é que a castração está em toda parte.
Aliás este verso se encontra em "Função e campo da fala e da linguagem" ligeiramente modificado: "Entre o homem e o amor, há a mulher; entre o homem e a mulher, há um mundo; entre o homem e o mundo, há um muro".
Muro agora quer dizer muro da linguagem, vulgarização dos conceitos na consciência comum ou literalização da metáfora.
Outro ponto importante desta conferência, pelo qual Lacan se interessa durante toda a sua obra, diz respeito à relação da paranóia com a personalidade. Sua tese de doutorado de 1932, revisada em 1975, é que a personalidade é paranóica: tudo faz sentido. Para o psicótico, de fato. Para o neurótico, a ilusão que as coisas têm sentido, o senso comum. O sujeito neurótico recalca para fazer desaparecer algumas coisas que faziam sentido e as transforma em sem sentido, mas acredita na ilusão do sentido comum. Este é o grande paradoxo.
O modelo topográfico da personalidade freudiana: Id, Ego e Superego [IES] - um ego simultaneamente impulsado e repulsado, assim como, o modelo topológico da personalidade lacaniana: Simbólico, Imaginário e Real [SIR] - um real indizível e inimaginável, ao tempo em que exclui o sentido, faz do cúmulo de sentido a condição da personalidade. Como dizia Schreber: a condição da paranóia é que todo o sem sentido se anule. RSI é a personalidade paranóica. Quanto à neurótica é preciso aditar aí um quarto nó, o sintoma, sigma - S, para que o sentido permaneça no real. RSIS é a personalidade neurótica.
Se não há sentido, a razão, o lógico, o que dá sentido desliza até R.E.S.O.N., ortografia proposta pelo poeta Francis Ponge para falar de resonner, ressoar, que Lacan não ignora ao dizer que o objeto a é completamente estranho à questão do sentido e da razão. A razão é algo que se impõe como ressonante e não como intuitivo ou visual. O objeto a está do lado da lógica do significante, da lógica da matemática.
Uma terceira questão abordada aliás no início desta aula diz respeito à repetição. Os colegas do Campo Lacaniano de Barcelona têm uma revista. Eles anunciaram o lançamento do último número assim: "saiu ACTE n.º 1 que é a segunda, porque resolveram chamar a primeira de n.º 0. Isso circula muito em nosso meio, dado que Lacan apontou essa leitura de Frege de que há a série dos números naturais e sua ordem, a cardinalidade e a ordinalidade. Se contamos a partir do 0, ele é o primeiro número da série. O número 1 é o segundo e o 2 é o terceiro. Por isso Lacan diz que só há repetição quando há uma segunda vez e uma segunda vez já é a terceira considerando-se o 0 como o primeiro número da série.

0 1 2 cardinal
1º 2 º 3º ordinal

Outra forma de explicar isso seria recorrendo ao que, por necessidade de sistematização, os matemáticos dizem que o 0 é um número degenerado ou neutro porque não geram nada. Tudo o que se adiciona ao 0 permanece como está. Por outro lado, o número 1 é gerador. Isso é equivalente ao que se passa com as cadeias sobretudo borromeanas. A cadeia de 2 é degenerada, isto é, se comporta como o 0 na adição, e a cadeia de 3 é geradora, se comporta como o 1

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Para concluir sua exposição, a comentadora desta aula, Silvana Pessoa, introduz um comentário de Miriam Chnaiderman, segundo o qual, o processo analítico vai exatamente no sentido do revogação daquilo que se supõe saber: "No trabalho do inconsciente o analista sempre ouve outra coisa do que está sendo dito. Lacan radicaliza essa proposta e a opera através de um trabalho sistemático com o poético. O que é o poético senão a irrupção do não simbólico no simbólico, ou seja, a quebra de uma lógica discursiva linear? A eficácia de uma análise e a segurança de uma interpretação não obedecem à lógica do sentido, é a fuga permanente de um saber constituído, mas não estamos sendo psicanalistas quando na clínica apenas descobrimos o que Freud descobriu. É preciso descobrir o que é o inconsciente a cada momento em cada sujeito. O progresso do conhecimento não tolera a inalterabilidade de definições".
Por isso pesquisamos além de Freud e Lacan. Esta tem sido a temática do Campo Psicanalítico em Salvador.

O SABER DO SONHO
O sonho da morte de alguém querido acompanhado de dor e sofrimento nunca é para Freud uma prova de um desejo atual.Este tipo de sonho, atualiza um desejo infantil,denuncia , revela um desejo recalcado .
Ida Freitas, na sua apresentação no dia 13 de junho,trabalhando o texto freudiano da Interpretação dos Sonhos, "Sonhos sobre a morte de pessoas queridas" tratou do recalque como um problema do saber,traçando um paralelo entre o mito de Édipo e a peça Hamlet de Shakespeare. Fazendo referência a textos de Lacan e Gerbase , mostra que na mentalidade grega o saber é tratado como no sonho.No sonho assim como no mito de Édipo,o não saber se revela,se realiza sem que o sujeito saiba.Há o assassinato do pai,há o incesto.Na mentalidade moderna,em Hamlet , há o saber sobre o assassinato do pai..O pai lhe diz quem o matou,ainda assim o recalque,o não sabido opera, neste caso, de forma simbólica , no nível do ato.Hamlet adia o ato até o último momento.O drama de Hamlet vai mais além da resposta edípica e aí reside sua importância para a psicanálise. Hamlet nos permite aceder ao sentido de S(A/),deste significante que falta ao Outro, em outros termos, da impossibilidade da sexualidade humana.

O SABER DO SINTOMA
Trabalhamos no ultimo trimestre neste Seminário dois sintomas de fundamental importância para a clinica psicanalítica ,a depressão e a somatização ."A depressão:rejeição do inconsciente",foi a partir desta afirmação de Lacan,que se encontra em Televisão[1974], e em articulção com a clínica , que Amélia Almeida desenvolveu sua intervenção . Ressaltou que , para um sujeito as perdas de objeto e de gozo fálico aí implicado , levam-no ao reencontro com a castração , reativando a perda de objeto primária.Apontou que deparar-se com a falta de objeto , que faz furo no real , pode provocar desordens no simbólico por conta da insuficiência de elementos significantes.Isto lança o sujeito numa busca incessante de sentido ( que sabemos inapreensível ) erigindo-se aí gozo e,portanto,uma resposta depressiva.Formulou que esta resposta tanto mais se coloca quanto mais o objeto perdido esta referido ao falo.Nesse caso,não há nada mais a se oferecer para tapar o buraco,não encontrando o sujeito significações que possam metaforizá-lo.O que se desvela é a angústia de existir , sem objeto . Lacan considera a depressão como uma falta moral que chega a se constituir numa rejeição do inconsciente.Após intenso debate,verificamos que "a depressão seria a oportunidade do sujeito construir um objeto.
Dando continuidade ao estudo do SABER DO SINTOMA,em maio , Ida Freitas nos trouxe sua elaboração a cerca da somatização , abordada como cisalhamento do corpo , lembrando que foi através da escuta das histéricas , dos sintomas somáticos , que Freud inventou a psicanálise.
Baseando-se no sintoma da LER ou DORT , sintoma contemporâneo que muito afeta o corpo e a mente , desenvolve seus argumentos listando como determinados campos do saber a exemplo da anatomia , da sócio-economia , da ergonomia interpretam a LER objetando a hipótese psicanalítica com suas formulações sobre o que leva um corpo tornar-se cisalhado , deformado , recortado o que tão bem demonstra um quadro de LER.
A hipótese psicanalítica consiste na afirmação do sujeito do inconsciente que depende da linguagem , depende do significante, da alíngua , que é seu objeto e que este material significante cisalha o corpo. Hipótese que Lacan discute em "Televisão",quando contrariamente a Aristóteles , diz que o homem não pensa com a alma , que o homem pensa porque uma estrutura , a linguagem , recorta , cisalha seu corpo.
A psicanálise então não tem uma hipótese a cerca da LER mas sim, uma concepção do sujeito dividido pela linguagem que na sua singularidade pode vir a produzir e, ou padecer de sintomas que venham afetar seu corpo.

O SABER DO OUTRO
     A METÁFORA DE CAMPO NA CIÊNCIA

Na última quarta-feira do mês de abril, dentro do programa do Seminário - O saber do Outro - espaço aberto pelo Campo Psicanalítico para interlocução com outros saberes científicos - Naomar de Almeida Filho, Professor Titular de Epidemiologia do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, trabalhou o tema " A metáfora de campo na ciência" a partir de quatro pontos: 1] metáforas na ciência; 2]campo de forças; 3] a ciência de campo e 4] campo científico.
Tomando como primeira referência o Círculo de Viena, o Professor Naomar mostra como adveio daí a consideração de ser o produto da ciência um processo de metaforização do mundo, no qual a linguagem é o principal instrumento.
Em seguida, ao longo de sua exposição, trouxe contribuições de vários autores ao tema. Por exemplo, a metáfora em referência a um objeto; a metáfora newtoniana de campo gravitacional; a metáfora de campo eletromagnético, de campo atômico.
Define campo como um espaço de forças que atuam ou colidem. Mostra que a noção de campo tem limites. Passando por Marx, Kuhn e Malinovsky, chega a Bourdieu, considerando nesse percurso as diferentes abordagens da noção de campo.
Detendo-se um pouco na contribuição de Pierre Bordieu, o autor mostra que a idéia de campo é metafórica, mas se refere a uma prática. Campo é um universo de práticas, relativamente autônomo, campo de lutas concorrenciais, onde existem várias instâncias de consagração e reconhecimento. Por exemplo, campo científico, campo artístico, campo da literatura, etc.
Mostra ainda a problemática de se conceituar campo como espaço social, dado que por espaço social se deve entender um outro conceito no qual se distribuem as posições dos agentes e instituições, a depender do seu capital econômico ou cultural.
Por sua vez destaca que o uso do conceito de capital pode ser estendido a outros campos além do econômico. Capital é um conceito relativo às disposições adquiridas pelos agentes, o habitus, que se acumula ao longo de sua trajetória através das disposições herdadas, do sistema de ensino, etc. O capital pode ser econômico, cultural, social, simbólico, etc.
No tópico do campo científico, o Professor Naomar situa a saúde coletiva a partir dessa noção. Prossegue mostrando a estrutura de relações objetivas, de investimentos físicos necessários à obtenção e reprodução da ciência e introduz a discussão de algumas perguntas relativas ao sujeito social coletivo da ciência e à gestão do campo científico.
Finaliza afirmando que o produto da ciência é metafórico e que a ciência não produz saber, mas conhecimento. 

     NÃO MINTA A IDADE
Na última quarta de maio p.p., no Seminário "O saber do Outro" - interconexão com outros saberes científicos, o Campo Psicanalítico contou com a presença da Professora da Escola de Administração de Empresas da Universidade Católica de Salvador e membro do Núcleo de Análise do Discurso da UCSAL, NEAD, Maria José Campos Rocha que apresentou o trabalho "Um olhar sobre a retórica".
Tendo como objetivo discutir algumas noções centrais da retórica grega e suas ressonâncias na contemporaneidade, o trabalho desta especialista em análise de discurso teve a atenção centrada no plano semântico-discursivo da retórica aristotélica, considerando-os, com alguns deslocamentos, como noções cruciais para a construção dos efeitos de sentido nas comunicações contemporâneas em diversificados campos, como a política, o direito, a arte, a publicidade e as interlocuções periféricas.
Tomando como corpus uma peça publicitária em outdoor exposta em alguns pontos da cidade de Salvador e trabalhando na perspectiva da análise do discurso de vertente francesa, a professora Maria José realizou uma leitura da peça selecionada buscando demonstrar que na publicidade contemporânea a modulação inteligente da tríade retórica do logos, do ethos e do pathos, operando com o imaginário social, constrói o ato discursivo da persuasão e provoca um amálgama de efeitos na opinião pública.
A peça selecionada pela autora - NÃO MINTA A IDADE (Deixe a sua pele fazer isso por você) – é o programa de tratamento cosmético facial promovido pela marca "O Boticário". O material reúne o desenvolvimento da tecnologia bioquímica e a ideologia do culto à beleza, pretendendo quase concorrer com o saber legitimado da dermatologia.
Segundo a autora, o logos é a dimensão racionável com a qual o locutor aparentando imparcialidade convoca o alocutário a fazer prevalecer a verdade. Aliás ela destacou que não existe o falante empírico, que o alocutário é uma entidade convocada pela frase. Isso se obtém pela introdução do signo da negação o que pressupõe que se mente a idade. Em si mesmo o enunciado não é verdadeiro nem falso, ele se torna verdadeiro ou falso unicamente no decorrer de uma enunciação particular. Há aí polifonia do significante - mente-se a idade e não se deve mentir a idade.
O ethos, a dimensão moral entra em cena logo que se evidencia que está em jogo a questão do caráter e os costumes sociais - não é necessário mentir para ocultar o envelhecimento.
O pathos, a dimensão de angústia e de culpa se instala no momento de se decidir o ato - mentir, não mentir. Instala-se o impasse da escolha entre a verdade e a mentira. A necessidade de um semblante, de uma aparência de solução então se precipita: "Deixe a sua pele fazer isso por você". Atinge-se assim o efeito econômico, efeito de satisfação ou de gozo relativos à beleza e à juventude. No caso do chiste seria esse o momento em que se produziria o riso.
O trabalho da professora Maria José Campos Rocha possibilitou aos presentes um debate extremamente rico no qual se incluiu também a análise discursiva de algumas formações do inconsciente.


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Dando continuidade ao comentário de Jairo Gerbase sobre as três perguntas que Lacan propõe sobre o cartel na aula de 14 de abril de 1975 do Seminário RSI, transcrevemos a segunda.

2] Ouviram falar da identificação? Em Freud, a identificação é simplesmente genial. O que é que desejo? A identificação com o grupo. Pois é claro que os seres humanos se identificam com um grupo. Quando não se identificam com um grupo, estão mal, devem ser trancafiados. Não estou dizendo aí com que ponto do grupo eles devem se identificar. O ponto de partida de todo laço social se constitui da não-relação sexual como furo.

Desta vez me refiro à aula de 16 de novembro de 1976, do seminário L’Insu-que-sait de l’une-bévue s’aile à mourre". Lá se notará que Lacan definirá a identificação como o que se cristaliza em uma identidade. Há para Freud pelo menos três modos de identificação, uma que ele qualifica de amorosa, a identificação ao pai, uma feita de participação, que ele denominou de identificação histérica, e depois aquela que ele fabrica com o traço unário. O traço unário não tem nada de especial a ver com uma pessoa amada. Uma pessoa pode ser indiferente, e no entanto um dos seus traços será escolhido como constituindo a base de uma identificação.
Lacan foi levado a encontrar um modo borromeano de enlaçar os três círculos do imaginário, do simbólico e do real para, dessa forma, situar a relação entre o grupo e aquilo que estaria no interior de cada um daqueles que compõem o grupo, ou seja, aquilo que se acredita ser a unidade e que se denomina de o eu. Em seguida quis designar de maneira homóloga estas três identificações e os três modos de inversões de toros.
Já se tentou demonstrar a impossibilidade de identificação ao grupo. Opôs-se a uma assim chamada identificação vertical freudiana, a identificação ao líder, uma espécie de identificação horizontal lacaniana, a uma espécie de não-identificação suportada no um por um. Porém, o que existe na verdade é a impossibilidade de o ser humano não se identificar ao grupo. Parece que não há essa possibilidade de não se identificar a um traço unário do Outro. O problema que se coloca é a que ponto ou traço do grupo o ser humano deve se identificar.
Lacan toma como exemplo indesejável de organização, a sociedade psicanalítica, dizendo que Freud a fundou, dez anos antes de escrever "A psicologia do grupo e a análise do eu", antes de se interessar por grupos suportados em mecanismos mediante os quais acontece uma identificação do eu de cada um com uma mesma imagem ideal, cuja miragem é sustentada pela imagem do líder.
Porém hoje, quando se observam que os fenômenos de identificação ao líder também se verificaram no modo de organização que ele próprio fundou, ou seja, a Escola, que se pode dizer senão que não há a boa identificação?
Por que não há a boa identificação? De um certo modo poderia se dizer o inconsciente é o próprio fato de que nenhuma identificação é boa, que no inconsciente não pode haver reconhecimento, que o inconsciente é tudo o que dá conta do caráter fundamentalmente insatisfatório da identificação.
Não podendo sustentar a identificação no significante mestre, porque é escroque, porque promete o que não pode cumprir, ou seja, a articulação a um outro significante, porque o discurso em que ele se sustenta é o mais mentiroso porque é o mais impossível, não podendo sustentar a identificação no sujeito barrado, porque a identificação não faz desaparecer a divisão do sujeito, Lacan tentou designar no objeto a o que não é possível almejar na ordem da identificação. Mas, ainda assim, definitivamente me parece que a questão continua: como dar conta do fato de que nenhuma identificação é satisfatória?



MEMBROS

Alda Menezes-2485657-91266657- cpalda@uol.com.br
Amélia Almeida-2354123-99690726- cpame@uol.com.br
Angélia Teixeira-2354245-99875043- cpangélia@uol.com.br
Fátima Pereira-2375890-91557988- cpfátima@uol.com.br
Ida Freitas-2452305-91145558- cpida@uol.com.br
Jairo Gerbase-2473874-91347874- cpgerbase@uol.com.br
José Antônio Pereira da Silva- 3717516-99793612- cpjaps@uol.com.br
Myriam Cardoso-2487052-91447887- cpmyriam@uol.com.br
Silvana Pessoa-2353316-99677760- cpsilvana@uol.com.br
Sônia Magalhães-2616330-91217900- cpsonia@uol.com.br

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ASSOCIAÇÃO CIENTÍFICA CAMPO PSICANALÍTICO E FÓRUM DO CAMPO LACANIANO NA BAHIA

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