wpe26.gif (16654 bytes)

BOLETIM INFORMATIVO DO CAMPO LACANIANO NA BAHIA - Ano I  
Nº 6  SETEMBRO  2000

Apesar de estarmos em final de setembro, o FURO segue sua série trazendo a programação deste mês, e algumas sinopses das apresentações realizadas em julho e agosto.
Acreditando na continuidade do trabalho no campo da psicanálise em constante interação com outros campos do saber que vem enriquecendo nossos debates como aconteceu nas noites em que o discurso psicanalítico interagiu com o discurso da filosofia de Popper e Bachelard, com a filosofia do direito, discutindo o interessante tema "Lei do Pai e lei do Estado", da literatura, da medicina, e da topologia que durante as aulas do seminário-de-jairo-gerbase tem nos levado a refletir sobre a relação topológica entre sintoma, espaço e tempo. É também por pensarmos que é através do permanente questionamento acerca de que maneira este labor, de sabor e saber deve acontecer. De como, porque e para que nos associamos numa comunidade analítica que, ainda com todo atraso deste número de nosso FURO, não hesitamos em realizá-lo na expectativa de que junto com a primavera, possamos florescer, plantando nosso trabalho em conformidade com aquilo que queremos. E é essa a pergunta que o FURO deixa ecoar: O que queremos?.......

programação-de-setembro-outubro

quartas-do-campo-lacaniano . 20h

06/09 - Pesquisa Psicanálise e Criança Tema: Educação e Psicanálise Expositor: Prof. Jaime Barros Debatedora: Silvana Pessoa
13/09 -
Interface Psicanálise e Medicina Tema: A Oncologia e a Psicanálise Expositora: Ofélia Castro Debatedor: José Antonio Pereira da Silva
20/09 -
Interface Psicanálise e Filosofia Tema: Heidegger - A revisão do sujeito em Heidegger Expositor: Prof. Luciano Costa Santos (UCSAL) Debatedora: Fátima Pereira
27/09 -
Fórum do Campo Lacaniano Tema: Debate sobre escola Responsável: Angélia Teixeira
04/10 -
Pesquisa Psicanálise e Criança Tema: Sabor e Saber "o apetite do olho e do ouvido" Expositora: Ida Batista de Freitas Debatedor: José Antonio Pereira da Silva
11/10 -
Interface Psicanálise e Medicina Tema: Os benefícios da escuta psicanalítica na psicose Expositora: Silvana Pessoa Debatedor: José Antonio Pereira da Silva
18/10 -
Interface Psicanálise e Filosofia Tema: Wittgnstein-Linguagem na Filosofia e na Psicanálise Expositor: Prof. Dr. João Carlos Salles (UFBA) Debatedora: Fátima Pereira
25/10 -
Fórum do Campo Lacaniano Tema: Debate sobre Escola Responsável: Angélia Teixeira
 

quintas-do-campo-lacaniano . 20h

28/09 - Interface Psicanálise e Criminologia Tema: O inconsciente e os atos do sujeito Responsável: Alda Menezes
26/10 - Interface Psicanálise e Criminologia Tema: A Sociedade e o Supereu Responsável: Alda Menezes
 

1 . 2 . 3 . 4 . 5 . 6 - léxicos - 6 . 5 . 4 . 3 . 2 . 1

Léxico II - Léxico Freudiano
Apresentação: Nilda Deiró
5ª feira - 19:00-20:30 hs. Semanal
Contato: 332-6243 / 331-0096 / 332-5193

Programa:

21/09 - Repetição
28/09 - Demanda e desejo
05/10 - Narcisismo
19/10 - Sublimação e dessexualização
26/10 - Ato falho
Léxico V- Casos Clínicos de Freud e Lacan
Apresentação: José Antonio Pereira da Silva
3ª feira - 20:00-21:30 hs. Semanal
Contato: 351-7516 / 9979-3612 e-mail: japs@svn.com.br

Programa:

03/10 - O homem dos lobos: cena primária; foraclusão; obsessão; paranóia
10/10 - O homem dos lobos: cena primária; foraclusão; obsessão; paranóia
17/10 - Schereber: fracasso da metáfora paterna; paranóia; esquizofrenia
24/10 - Schereber: fracasso da metáfora paterna; paranóia; esquizofrenia
31/10 - Aimée: paranóia de autopunição

 

debates-de-julgo-agosto

interface
psicanálise e filosofia

    Os meses de julho e agosto foram marcados por dois encontros de "Psicanálise e Filosofia". O primeiro, no dia 26 de julho p. p., com a presença da Profa. Dra. Elyana Barbosa que nos trouxe o tema "A ciência na Filosofia e na Psicanálise", enfocando dois grandes filósofos que elaboraram reflexões dentro dessa perspectiva: Karl Popper e Gaston Bachelard.
    A atitude de Popper frente ao problema do conhecimento difere da posição da grande maioria dos outros pensadores que se debruçaram sobre esta questão. Ele não propõe caminhos que conduzam invariavelmente à verdade. Tais caminhos não existem para ele. Não se atendo ao estritamente observável, ressalta que é preciso inventar hipóteses ricas, conjecturas fecundas que possam propiciar predições testáveis. Popper é trazido como aquele que rompe com a tradição cartesiana de procurar a base do conhecimento em certezas absolutas e verdades indubitáveis. Ao final das contas, todas as certezas indubitáveis acabam por serem triviais, tautológicas... A meta da ciência deveria ser a construção de hipóteses férteis que oferecessem solução a problemas. Em suma, o método popperiano poderia ser o resumo de um primeiro momento marcado pela criatividade e um segundo, submetido ao teste de hipóteses criadas.
    A palestrante teceu ainda considerações sobre o livro de Popper "Conjecturas e Refutações", onde o autor alude sobre a diferença fundamental que parece haver entre uma teoria como a da relatividade e as três teorias de Marx, Freud e Adler. O que impressiona os admiradores desses autores, cita Popper, é a aparente capacidade de explicação dessas teorias. O estudo de qualquer uma delas parece ter o efeito de levar o pesquisador a uma nova verdade, escondida aos não-iniciados, mas repleta de verificações aos que a ela estão adentrados. Popper conclui que essas confirmações são apenas aparentes, pois o que ocorre em realidade, são casos interpretados à luz da teoria em questão, dando a ilusão de uma genuína confirmação, ou seja, a experiência é lida de um modo que sempre se acomoda à teoria. Fundamentalmente diferente parecia ser a teoria da relatividade. Essa teoria se apresentava como aberta à refutação, suscetível de ser refutada, colocando-se numa posição diferente das três teorias citadas, pois as mesmas não eram capazes de sustentar predições que colocassem em risco as teorias que as embasavam. Tais reflexões levaram Popper a encontrar o critério que distingue a ciência das especulações não-científicas: o critério da falseabilidade. A irrefutabilidade, deste ponto de vista, não é uma virtude, mas um vício. Para ele, o conhecimento tem início com uma teoria que, no confronto com a experiência é corroborada ou refutada. Sem uma teoria prévia não é possível qualquer observação.
    Quanto a Bachelard, é visto como o autor que nos apresentou o projeto de uma antropologia completa, descrevendo o homem na sua vida onírica e intelectual. Para ele, o que vai caracterizar o homem atual é o seu poder de inventividade. Criar para ele, não é descobrir o que está encoberto, mas fazer ser o que não é. O homem é assim, considerado na condição de um demiurgo, o instaurador de novas realidades...
    Num esforço de aproximação com a Filosofia, a coordenação da mesa estabeleceu algumas considerações acerca do Seminário XXV de Lacan. Uma delas, trata da questão da racionalidade, tão cara à ciência. Para Lacan a racionalidade dependeria do domínio daquilo que os lógicos chamaram o "Universo do discurso". Um universo de discurso como, por exemplo, o da racionalidade geométrica, passou muito tempo restrito à forma do círculo e fez disso uma "concepção de mundo". Só a partir da topologia pôde-se escapar desse Universo e ultrapassar a racionalidade geométrica anterior, indo ao "toro", `a "trança"...
    Passando ao comentário do segundo encontro que tivemos na mesa de agosto, tivemos a presença da Profa. Graça Belov (UCSal) que nos trouxe, nessa oportunidade, o tema: "Lei do Pai e Lei do Estado" a Filosofia do Direito e a Psicanálise. A Profa. iniciou sua fala com um panorama através de grandes nomes da Filosofia Política da modernidade, como o filósofo Tomas Hobbes. Retomando a questão de como viviam os homens antes do Estado enquanto instituição, numa alusão direta ao "Leviatã", retomou os principais argumentos dessa obra hobbesiana, mostrando como o medo de uma guerra de todos contra todos levou os homens a se reunirem e criarem um pacto. A Lei nasce do medo da guerra, da destruição, da morte. Numa visão oposta a de Hobbes, apresentou o filósofo J. Jacques Rousseau, tecendo considerações sobre o "Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens", trazendo ainda os pontos fundamentais da doutrina contratualista de John Locke, chegando até aos pressupostos da Revolução Francesa. Nessa linha de considerações, a Profa. chega à sociedede neo-liberal onde verifica a quebra da dicotomia entre o capitalismo e o socialismo, onde o eixo deixa de ser o homem para ser o capital. O Estado neo-liberal que só olha as pessoas enquanto possibilidades objetais. Citando Agostinho Ramalho Neto "Neo-liberalismo e democracia", considera que o neo-liberalismo não tem possibilidades de cumprir os anseios do homem. Acaba por concluir que o Estado
neo-liberal desconstituiu tudo, acabando por desconstituir o próprio Estado como Instituição e o próprio sujeito. Numa perspectiva foucaultiana pondera que quando a sociedade exclui o sujeito, retira dele a possibilidade de se constituir. Considera ainda, que uma proposta neste final de século é a de que os direitos fundamentais estejam acima da Lei. Mas como manter entre os direitos fundamentais a propriedade privada? Sendo assim, chega à conclusão que o cerne da problemática humana é a propriedade privada...
    Nas consideraçãoes possíveis, a partir da fala da palestrante, dentre os psicanalistas presentes, Dr. Jairo Gerbase considera que há no Direito e na Psicanálise, paradigmas distintos. Na dimensão estrutural, própria à psicanálise, a questão que surge é: "Que instrumento tenho para caracterizar a dimensão do sujeito? A
resposta é: o sujeito do discurso que se equivale ao sujeito mental. Para nós, psicanalistas, a idéia de Lei pode ser entendida como um certo limite do significante. Há limites na linguagem: há limitação no sistema simbólico. Mas a psicanálise se arrisca a generalizar: "Todo discurso tem por origem ou finalidade o gozo." O homem só existe no discurso, então o homem só existe enquanto fala. Na medida em que o Direito é também discurso, podemos interrogar de que forma e como é estruturado. Num último esforço reflexivo, a palestrante conjuntamente com os presentes se deteve na questão: "Afinal, o que é mais essencial para o homem; o gozo ou a propriedade?" questão esta, encaminhada para uma tentativa de superação entre as posições do Direito e da Psicanálise, e que foram consideradas pela palestrante como: "O homem só goza tendo..."



interface
psicanálise e criança

    Algumas consequências discursivas da asexo (ualidade) na adolescência, por Graciela Bessa.
    Temos uma literatura bastante vasta sobre o tema da adolescência. Há toda uma atenção voltada para esse campo onde diversos setores da cultura participam de discussões, seja pelo viés da droga, do alcool, do aborto, da gravidez, da AIDS e porque não incluir aí o discurso capitalista que com a mídia tem o público jovem na mira como consumidores. A psicanálise também participa desse debate.
    Embora adolescência não seja uma categoria psicanalítica há um certo consenso entre os analistas de que se trata, (recorrendo aos termos dos tempos lógicos de Lacan), de um momento em que se abre para o sujeito a dimensão do ato no que diz respeito à sexualidade.
    Se partirmos da leitura que Lacan realiza da obra de Freud, será preciso dizer que o sexual é discursivo, é um dizer. O termo sexuação foi o modo de Lacan tratar, com a lógica, a sexualidade no ser falante. Com as fórmulas da sexuação ele trata a diferença sexual como a lógica do todo fálico e a lógica do não todo fálico e é nisso que consiste a heterossexualidade. Assim, independentes de seu sexo anatômico, os seres falantes estão sexualmente repartidos de acordo com a inscrição em uma dessas duas modalidades lógicas de gozo. Com isso Lacan põe no significante, ou melhor, na falta de um significante, os avatares que a sexualidade pode ter para cada um. Para Lacan o sexo não é anatomia e nem tão pouco define uma relação, é um dizer e é assim por causa do significante que faz com que alí onde deveria escrever a relação sexual o que encontramos é o conjunto vazio. Lacan faz disso, de que não há relação sexual, o fundamento da psicanálise: esse impossível de dizer um dos sexos.
    Partindo deste fundamento, poderemos caracterizar a chamada "adolescência" como o momento em que o sujeito experimenta ou se confronta com a impossibilidade da relação sexual. Ela é marcada por um encontro que denominamos de encontro com o real. Quando os rapazes e as moças estão aptos para a relação sexual, experimentam essa impossibilidade. Proponho pensar essa impossibilidade não pela via de que isso se dá, somente, porque a mãe está interditada, mas, por algo que Lacan denomina de asexo. A presença do a antecedendo a palavra sexo tem duas funções, uma é para evocar o objeto a e a outra a de ser uma partícula de negação para dizer que há um sexo que não se escreve e com isso impossibilita que entre os sexos se estabeleça algo que seja da relação sexual, melhor dizendo, o sexo se inscreve na não relação.
    Asexo(ualidade) faz uma hiância radical entre sexo e genital e é uma maneira de escrever o impossível de dizer do gozo feminino. É tratar o sexo como um dizer. Para que se estabeleça uma relação sexual é necessário que haja um dizer para um sexo e um outro dizer para o outro sexo, mas, não é isso que acontece porque o gozo feminino se experimenta, mas, não se diz. A nossa hipótese é tomar esses sintomas que encontramos frequentemente na adolescência não mais como retorno de fragmentos ou detritos do Édipo que não foram suficientemente recalcados, mas, como forma de suplência à asexo(ualidade), à não relação sexual.
    É no momento de escolha de um objeto, em que irá praticar um modo de gozo, que o adolescente fica diante do fato de que entre um homem e uma mulher não há relação sexual, é disso que padecem os seres falantes. A tarefa do adolescente, quando se coloca do lado todo fálico é colocar um sintoma alí onde é impossível a relação sexual e com esse sintoma abordar uma mulher, e em relação às mulheres é se deixar apreender nesse lugar de sintoma para um homem e assim poder experimentar um gozo que ultrapassa os limites do falo.
    O que se verifica neste momento da adolescência é que as identificações simbólicas são necessárias mas não são suficientes para o sujeito neste encontro com a falta de um dizer sobre um dos sexos. Cada um aí constrói um sintoma que será seu parceiro para fazer suplência à não relação sexual.


Interface
Psicanálise e Medicina

    "As teorias filosóficas sobre a alma"
    Fátima Pereira dividiu sua exposição em dois momentos: um primeiro momento que denominou de histórico-descritivo, onde fez um comentário sucinto dos principais filósofos, que na história da filosofia, se detiveram diante da questão da Alma. E num segundo momento, uma reflexão contemporânea sobre a necessidade de se abordar esse tema, buscando atingir em que medida a idéia de Mente (nome atual para antiga noção de Alma) tem influenciado nosso mundo cartesiano-kantiano de conhecimento, levantando a seguinte questão: é possível um projeto de ultrapassamento da idéia da filosofia, como fundamento, através de um ultrapassamento da idéia cartesiana da divisão corpo e mente?
    Inicia por Demócrito para quem a alma e o intelecto são a mesma coisa. Para Sócrates a alma participa da natureza divina e vem ao homem por Deus. Platão distinguiu três poderes para a alma. O poder racional, que é aquele pelo qual a alma raciona e domina os impulsos corpóreos, o poder concupiscível ou irracional que é precisamente aquele que preside aos impulsos, aos desejos, às necessidades e concerne ao corpo; e o poder irascível que é auxiliar do principio racional e se indigna e luta por aquilo que a razão julga justo. Para Aristóteles a alma nada pode fazer sem o corpo. A alma para ele é razão e forma, não matéria ou sujeito. A matéria é potência, a forma é ação e como ser animado resulta de ambos, o corpo não é ação da alma, mas a alma é quem é ação de um certo corpo. A aceitação quase universal da doutrina aristotélica da Alma tem uma exceção em Plotino, que não quer que a alma tenha qualquer liame com o corpo acentuando os caracteres divinos da Alma. Esta doutrina de Plotino acaba por abrir o caminho para que o conceito de Alma seja suplantado pelo conceito de consciência. Santo Agostinho recolhe a herança do neoplatonismo e a transmite ao mundo cristão. Para ele, Deus está na alma e se revela na mais oculta interioridade da própria alma.
    A Escolástica do século XIV oferece-nos com Ockhan uma inovação radical, a dúvida sobre a realidade da alma intelectiva. Ockan relega, pois a realidade da alma intelectiva como suposto sujeito das operações espirituais de que temos experiência. Devemos a Descartes a noção de mente como uma entidade separada na qual ocorrem processos.
    É no século XX que os filósofos Wittgestein, Heidegger e Dewey mostram-se concordantes em que a noção do conhecimento como representação acurada, tornada possível por processos mentais, especiais, deve ser abandonada. Richard Rorty filósofo contemporâneo apresenta a "Filosofia e o espelho da natureza". Para ele são as imagens e as metáforas que determinam a maior parte de nossas convicções filosóficas. Acredita que a filosofia analítica pôde dar alguns passos mais além, mas em ultima instância a diferença entre os filósofos analíticos e a filosofia da tradição kantiana, é mais uma diferença de estilo e tradição do que uma diferença de princípios primeiros. O esforço de Rorty consiste em mostrar como a gênese da noção de epistemologia no século XVIII, e sua conexão com as noções cartesianas da mente tem muito a ver.
    Fátima finaliza sua brilhante exposição sobre o tema, com Dewey que coloca a possibilidade de uma cultura não mais dominada pelo ideal de cognição objetiva, mas uma cultura onde antes as ciências fossem "as flores espontâneas da vida", livres daquela crosta de convenções filosóficas, tão difíceis de abalar.


Interface
Psicanálise e Criminologia

    Após uma prática de quatorze anos com adolescentes infratores, a coordenadora da Interface Psicanálise e Criminologia, Alda Menezes, responsável pela noite de 31/08, apresentou um caso de acordo com o tema: " O caráter neurótico " e a neurose como expressão de anomalia estrutural.
Caso:
    Jovem de 16 anos, institucionalizado porque não tem família, vivendo em Medida de Privação de Liberdade há mais de um ano, apresentava problemas físicos e psíquicos; tentou o suicídio algumas vezes, obedecia normas da unidade e demonstrava capacidade de aprendizagem.
    Abrigá-lo em instituição de jovens com déficits neurológicos ou distúrbios de comportamento o levaria a comportar-se como o grupo. Com Medida de Progressão para Semi-liberdade poderia desenvolver-se em meio aberto. Sujeito a todos os riscos e ao grupo de clientela diversificada, por dependência seguiria o grupo nos comportamentos infracionais.
    Os técnicos optaram por seu desenvolvimento em outubro de 1998. Ingressou na Unidade de Semi-liberdade em uso de Tegretol e Gardenal, seu EEG apresentava pequeno déficit. Não usava drogas, mas às vezes bebida alcóolica, embriagando-se, passando mal.
    Constatada a sua origem em duas cidades do interior da Bahia, mãe biológica " trabalhava " com prostituição e tráfico para a mãe adotiva. Logo desaparece e a mãe adotiva obriga a criança a servir bebidas alcóolicas no seu barzinho. Sofre agressões dos indivíduos que trabalham com a mãe adotiva, sendo deixado semi-morto na porta do bar. Passou por delicada cirurgia, o fato deixou marcas por quase todo o seu corpo e no seu psiquismo e obrigou a mãe adotiva a institucionalizá-lo. Há impossibilidade de convivência com a mãe adotiva e com o pai que tem dúvidas sobre sua paternidade e a companheira atual não aceita o jovem.
    No período, outubro de 1998 à junho próximo passado, trabalhou, estudou, foi encaminhado aos Programas da Instituição que oferecem moradia e emprego. Seu EEG atual tem laudo normal, usa Gardenal e um benzodiazepínico para controlar sua ansiedade.
    Em 1999 namorou uma colega, a gravidez na jovem foi motivo de " reatualização de sua história de vida ". Em junho próximo passado agrediu fisicamente o colega de 12 anos por trazer "tóxico" para a mãe do seu filho. Detido na Derca foi liberado em uma semana. Após três dias, incompreendido ao querer segurar o filho no colo, nova tentativa de agressão o levou ao regime de Privação de Liberdade, considerado período de custódia. Tarde implicou duas condições para a plena responsabilidade do sujeito: "a similitude social e a identidade pessoal."
    Kate Friedlander desenvolveu uma concepção genética do " caráter neurótico " enquanto isolamento do grupo familiar e da neurose como expressão de anomalia estrutural implicando mutilações autoplásticas. Daniel Lagache considera importante não a explicação da "passagem ao ato" no neurótico obsessivo mas do sujeito encerrado na conduta imaginária com adaptação parcial ao real.
    A condição não natural do humano, assujeitado a fala e a linguagem enquanto "sentido e história de vida", implica sua passagem por uma sucessão de crises: desmame, intrusão, Édipo, puberdade e adolescência cada uma delas reformulando nova síntese do "eu," cada vez mais alienante para as pulsões frustradas impossibilitando uma normalização.
    Apreendemos com Dr. Jairo Gerbase no seu Seminário SINTOMA, ESPAÇO, TEMPO, a "dicotomia" ou "impossibilidade" entre espaço (corpo) e tempo (significantes) através da identificação,identificação de significante, enquanto imaginária ou alienante. Ele considera que os casos clínicos devem ser tratados atipicamente, dentro da mais estrita particularidade.
    No trabalho social é estritamente necessária a particularidade de cada caso. Sabemos que na estrutura perversa o indivíduo faz o ato por "vontade de gozo" enquanto que na sua maioria os casos atendidos são de "passagem ao ato" no neurótico obsessivo, onde o sujeito está na dialética Lei x Desejo, com implicação da culpa.
    Em 1950, Lacan considerou que as tensões criminosas na situação familiar só se tornam patogênicas nas sociedades onde essa situação se desintegra.
    Foi interessante a discussão com excelentes participações do Psicanalista José Antônio, Drª Claudia Vaz Psicanalista com atuação no judiciário, Drª Carla Santos Ramos, advogada com interesse nessa área,e da Terapeuta Ocupacional Alessandra Tavares Ramos havendo trocas de informações na conexão Psicanálise e Criminologia.

 

seminario-de-jairo-gerbase

Sintoma Espaço Tempo
Aula 3 - 25/08/2000 - O Complexo de Édipo

    O fundamento da psicanálise não é o complexo de Édipo.
    Lacan nunca teve coragem de dizer isto explicitamente. Certamente teve receio de ser excomungado pela segunda vez. Porém deixou muitas indicações. Vou examinar uma a uma ao longo desse seminário. Detrás para diante como prefiro fazer.
    Na aula de 10.06.80, "O Mal-entendido", do seminário "Dissolução", disse escarnecendo Otto Rank, que não há outro traumatismo do nascimento que nascer como desejado. Desejado ou não, dá no mesmo, porque pelo falaser. Não é disso que o neurótico se queixa? Uns que foi muito desejado, outros que foi pouco desejado?
    Todo mundo faz logomarca do léxico desejo. Todo mundo tenta colocá-lo como fundamento da psicanálise. Todo mundo pensa que o problema é ser não-desejado. Sem querer escandalizar, devo dizer que o desejo também não é o filum da análise. O filum da análise é o gozo. No léxico de Freud é a satisfação. A satisfação da pulsão se quiserem, mas prefiro dizer a satisfação do sintoma. O Wunsch é o voto e pertence ao período fálico do ensino de Lacan, ao período em que estava em evidência o desejo-da-mãe, ao período da metáfora paterna.
    Seria melhor que o falaser não fosse desejado. Ser desejado é o que traumatiza porque sempre se é por um outro falaser que não sabe ele mesmo o que deseja. Creio que não é demasiado citar que toda criança que nasce é para sua mãe o objeto real que lhe falta. O peso da frase estando no real e não apenas na falta.
    Lacan acrescenta que o falaser se reparte em dois seres falantes que não falam a mesma língua, que não se ouvem, que não se entendem, que se conjuram para a reprodução, porém de um mal-entendido tornado efetivo.
    A conspiração dos corpos não é movida pelo desejo, mas pelo gozo.
    Na aula de 15.11.97, "A Tagarelice", do seminário "O Momento de Concluir", disse que Freud recorreu ao léxico pulsão sexual, em virtude de alguma coisa que se pensa existir na criança, mas que nada indica que alguma coisa merece ser chamada de pulsão com esta inflexão que a reduz a ser sexual. Que no sexual o que importa é o cômico. Que a vida não é trágica, mas cômica, e que é no entanto muito curioso que, para designar isto, Freud não tenha encontrado nada melhor que o complexo de Édipo, isto é, uma tragédia. Que não se entende porque ele não tomou um caminho mais curto, que seria o de designar por intermédio de uma comédia, isso que joga nessa relação que liga o simbólico, o imaginário e o real.
    Como disse, com astúcia, Lacan vai derrubando a soberania do complexo de Édipo enquanto "complexo nuclear da neurose" e propondo que a cópula de que se trata, a união sexual, a ligação com a qual a psicanálise tem a ver é a do RSI.
    Vera Motta nos lembrou da ultima vez, o sentido que tem em gramática e lógica, esse léxico cópula: o verbo ser enquanto exprime a relação entre predicado e sujeito. Por seu turno, Soler afirma que não fica tão claro o laço entre a posição do pai com respeito à lei e o mistério da união sexual com a mulher. Arrisca que talvez se trate aí de uma relação inversa entre o investimento das causas ideais e o investimento sexual do parelha.

    Na aula de 18.11.75, "O Sintoma e o Pai", do seminário "O Sintoma", Lacan afirma que o complexo de Édipo é como tal um sintoma. É o Nome-do-Pai e é também o Pai-do-Nome. Nessa ocasião profere a famosa máxima: "É preciso ir além do Pai tendo-se servido dele", que cada um lê como quer, e que eu por minha vez leio assim: é preciso ir além do pai e ir além do Édipo, todo mundo está de acordo. Tendo-se servido dele não que dizer, na minha opinião, que a cada análise primeiro se analisa o pai, o Édipo e depois se analisa o além, mas que, ao contrário, é preciso sempre analisar o pai e analisar o Édipo no além.
    Por fim, no que diz respeito a aula de hoje, examinarei ainda o fragmento da aula de 14.01.75, do seminário RSI. Em Freud, os três registros RSI não se sustentam, apenas são colocados um sobre o outro. Por isso, Lacan acrescenta um quarto elo, de modo a atar as três consistências. Este quarto anel chama de realidade psíquica e a faz eqüivaler nos termos de Freud ao complexo de Édipo. O complexo de Édipo, diz, não é, no entanto, de se rejeitar, ele está implícito no nó tal como o desenho e que liga no mínimo os três. Para passar ao quarto, para obter o nó borromeano, basta fazer, em dois pontos, passar por cima o que estava por baixo. Em outras palavras, é preciso que o Real passe por cima [surmonte] do Simbólico. Que o R passe por cima do S em dois pontos é precisamente o de que se trata na análise.
    Atenção para não tomar o termo surmonter no sentido imaginário, acreditandando-se que o R tem de dominar o S. Não se trata, entre R e S, de mudar de plano, trata-se de atá-los de outro modo. Esse de outro modo é o essencial do complexo de Édipo e é nisso que a análise opera.

 

 1 Ver Soler, C., Ubicación del Escrito de J. Lacan "De una cuestión preliminar...", acte, junio 2000, N.º 1.


____________________________________________________________

EXPEDIENTE
______________________________________________________________________________________

CAMPO LACANIANO NA BAHIA
Av. Reitor Miguel Calmon, 1210
(Vale do Canela)
Centro Médico do Vale - sala 110
CEP 40110-100 Salvador BA
Tel.: (71) 245-5681 Fax: (71) 247-4585
e-mail: lacaniano@svn.com.br
_________________________________________________________________________________________

Organização
Jairo Gerbase, Fátima Pereira e Alda Menezes
Divulgação e Acolhimento
José Antônio Pereira da Silva e Ida Freitas
Publicação
Sônia Magalhães e Silvana Pessoa
Biblioteca
Amélia Almeida e Myrian Cardoso
Fórum do Campo Lacaniano
Angélia Teixeira, Nilda Deiró e Andréa Hortélio Fernandes
Comissão Editorial do "FURO"
José Antônio Pereira da Silva e Ida Freitas

tiragem
100 exemplares

design
claudioxavier@brasilmail.com.br
cacauxavier@bol.com.br