
| BOLETIM
INFORMATIVO DO CAMPO LACANIANO NA BAHIA - Ano I Nº 3 JUNHO 2000 |
No mês de
maio, o Campo Lacaniano na Bahia deu prosseguimento às suas atividades, nos léxicos,
interfaces, grupo de pesquisa, fórum e seminário. Aconteceram diversas interlocuções
entre a psicanálise e áreas afins, dentre as quais com a filosofia, tomando-se Kant na
Crítica da Razão Prática e Hegel como o filósofo do sujeito na contemporaneidade; com
a literatura e seus efeitos no sujeito; com a medicina referindo-se à função da fala e
seus limites com pacientes com câncer e a com a criminologia, tomando-se a morbidez do
supereu no ato criminoso. No Seminário Clínica Lacaniana, continuamos no desvendamento
da topologia e sua aplicação na clínica psicanalítica. Vejamos algumas sínteses
desses momentos em Debate de maio.

Debate de Maio
O mês de maio foi marcado por dois encontros de "Psicanálise e Filosofia". No dia 3 p.p. tivemos a presença de Julice Oliveira dos Santos, Profa. de Filosofia da Ucsal, que nos trouxe uma reflexão sobre a "Crítica da Razão Prática" de Kant e o segundo encontro, realizado a 28 p.p. foi marcado pela palestra de José Crisóstomo de Souza, Prof. Dr. de Filosofia da UFBa., trazendo Hegel como um filósofo de sujeito, na linha dos grandes pensadores modernos.
Com a primeira intervenção, a busca de Kant na "Crítica da Razão Prática" pode ser resumida na pergunta: "Existe uma regra universal do que deve ser feito na vida?" Pergunta que aponta para uma dificuldade que o próprio Kant sublinhou, pois, como poderia ser a ação humana (que é subjetiva) configurar uma razão válida para todos? Fundar uma regra universal de conduta, necessita, inclusive, de um sujeito unitário, coisa que a razão pura questiona. Kant acaba por concluir que a lei da consciência deve pertencer a uma outra ordem:- ser a priori, racional e imperativa. Sendo imperativa recusaria, contudo, qualquer imperativo hipotético ou subordinando a ação a qualquer fim. O imperativo categórico universal seria uma mera forma, imposta à ação, sem nenhum conteúdo. Assim, o enunciado kantiano exclui todo objeto, a não ser aquele que entrevemos como pura voz na consciência.
É a partir daí, desse objeto cuja articulação fica indeterminado, que o interesse da psicanálise vai se voltar e que o texto de Sade vai nos permitir desvelar, como Lacan bem marcou em "Kant com Sade". Para Kant, quando todos os objetos de prazer são eliminados, o sujeito fica com uma voz que evoca o dever do sujeito para com a lei. Uma voz cuja função é de causa, objeto que causa a inscrição do sujeito a uma lei. Ao desconhecer a natureza da satisfação, Kant acabou por conduzir sua ética à vontade da lei pela lei. Entre Kant e Sade está a razão da psicanálise que, com um novo discurso, inaugura a articulação desse objeto, denominado objeto "a".
Na segunda intervenção, o Prof. Crisóstomo nos traz um Hegel completamente inserido na modernidade da Filosofia, um Hegel que continua a reflexão cartesiana, acrescentando ao "eu" a categoria do sujeito. Na trilha desta reflexão, o palestrante se deteve longamente na noção de sujeito na filosofia Kantiana, trazendo um sujeito que transcende as injunções do mundo e traz uma razão universal. Assim, o real é construído por um sujeito de razão.
Retomando Hegel nessa incursão pela categoria do sujeito, vemos então a explanação de uma teoria do homem histórico como sujeito nadificador, que exerce sua negatividade através da luta e do trabalho e é definido como sujeito de um desejo insatisfeito. É, portanto, com Hegel ( na orientação de uma leitura kojèviana ) que o "Eu penso" de Descartes se torna o "Eu desejo" no sistema hegeliano.
Devemos, inclusive, a Alexandre Kojève, que com seu Seminário nos anos 30, permitiu uma leitura da fenomenologia hegeliana possibilitando, através de seu ensino, a comparação do cógito cartesiano a consciência de si hegeliana. Na via desta interpretação do sistema hegeliano, Lacan, a partir de l938, encontrou parte de seus subsídios para a formulação de conceitos como o "eu" (je ), o desejo como revelação da verdade do ser e o "eu" (moi ) como lugar de ilusão e fonte de erro. Tal foi a forma como Lacan se integrou neste conjunto de interrogações sobre o desejo, o Cógito, a consciência de si e as ilusões do eu.
PESQUISA:Esteve sob a responsabilidade de Ângela Baptista do Rio Teixeira, psicanalista e coordenadora da Coleção Psicanálise da criança, da Editora agalma, e de Maria Helena Lois, psicóloga, especialista em Literatura infantil e coordenadora do grupo Asas da Palavra, o momento de articulação "Literatura e Psicanálise" programado pela atividade de Pesquisa Psicanálise e Criança do Campo Lacaniano na Bahia.
Ângela Baptista iniciou a sua exposição trazendo um fragmento de uma fala de Lacan: "Melhor, portanto, renunciar quem não puder unir a seu horizonte a subjetividade de sua época. Como poderia fazer de seu ser o eixo de tantas vidas aquele que nada soubesse da dialética que o compromete com essas vidas em um movimento simbólico?"
A partir daí, ela situou a sua primeira questão: "Que tipo de enlace seria possível, na nossa época, para Literatura e Psicanálise? "
De forma suave e trazendo uma vasta indicação bibliográfica a expositora buscou fazer uma articulação da literatura com a psicanálise trazendo contribuições de grandes autores da literatura, sobretudo os escritores-críticos citados por Leyla Perrone-Moisés no seu livro *Altas Literaturas*: Jorge Luis Borges, Octávio Paz, Joyce , Ítalo Calvino, Humberto de Campos. Foram, também, lembrados Barthes, Grimm, Hoffmann e outros que têm, com os seus escritos, possibilitado repensar o valor da literatura, o trabalho específico da linguagem, permitindo que se possa re-trabalhar, questões tais como: Leitura/Escrita Escritor, Autor, Leitor, os efeitos estéticos, o valor dos chamados contos infantis, etc .
Trazendo a questão da articulação Psicanálise e Literatura para o tema atual da Pesquisa Psicanálise e Criança ( SABOR E SABER) e para a questão do INFANTIL, Ângela ressaltou a importância concedida pela psicanálise ao - infantil - observando que a partir da teoria psicanalítica este termo deverá ser repensado. "Não é o caráter bobo, tolo", como se diz no senso comum, "mas sim o que é da ordem do sem-sentido, do non sense". A criança sempre aceita coisas que extrapolam o sensato ou o razoável. É assim que os contos de fadas têm um valor de retificação, podendo produzir um SABER com um SABOR de "non sense".
A segunda expositora, Maria Helena Lois, iniciou sua fala fazendo uma advertência a respeito do equivoco que alguns psicanalistas cometem em colocar os autores no divã. "Esta foi a primeira ressalva que minha orientadora do mestrado fez quando iniciei meu projeto de pesquisa"
Trazendo um relato desta sua pesquisa, Maria Helena marcou a importância de autores como JAUSS e ISER e apontou para a possibilidade de uma clínica revista numa articulação com a Literatura à luz de novos conceitos sobre o Ler e o Escrever. "Não devemos, afirmou Maria Helena, interpretar nem o texto, nem o autor. A leitura deve ser livre e deve ser tomada pelo efeito que ela produz em cada leitor. O texto se torna cúmplice do leitor através do efeito estético que este lhe causa.
No dia 24 de maio a INTERFACE Psicanálise e Medicina realizou seu terceiro encontro para debater o tema: "Função da fala no tratamento de pacientes com câncer", que foi comentado por Angélia Teixeira.
Tomando como eixo de sua exposição o comentário de Lacan sobre a pulsão no seminário O Sintoma, onde diz que "as pulsões são um eco no corpo de um dizer", Angélia faz uma abordagem do corpo na psicanálise , este corpo animado pelo significante, um corpo pulsional, erógeno, regido pela libido, como um corpo que traz em si um saber que escapa ao simbólico, um corpo no limite do simbólico, onde o efeito do significante mortifica seu gozo, desnaturalizando-o e é este corpo desnaturalizado que irá interessar à psicanálise.
É neste limite do simbólico que poderíamos então pensar as relações da fala e de por exemplo uma deficiência no sistema imunológico como o câncer. Estando advertidos, de que um dizer, uma enunciação, aquilo que o sujeito interpreta de um enunciado é na verdade insondável, sabemos que tem efeitos sobre o corpo, que o corpo do homem é sensível ao dizer,que não há fala, linguagem sem corpo, que não se pode dissociar mente e corpo, mas como sondar esta enunciação, como saber se foi a causa de um câncer?
Um ponto comum em três fragmentos clínicos comentados por Angélia é o sofrimento intenso tanto físico como moral que antecedem ao aparecimento do câncer. Poderíamos então pensar o câncer como uma possível resposta do sujeito a um impossível de dizer frente ao real de um sofrimento.
INTERFACE:Na sede do Campo Lacaniano, no dia 25 de maio, tivemos o terceiro momento da Interface Psicanálise e Criminologia, com o tema: "O complexo de édipo e a morbidez do supereu."
Tomou-se como referência a tese de Lacan de 1950 sobre a Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologia, onde, dentre outros enunciados, ele apontou: "Se a psicanálise irrealiza o crime, ela não desumaniza o criminoso."
O psicanalista José Antonio Pereira da Silva foi o responsável por esta noite, realizando um percurso de Freud a Lacan sobre o tema. Tomou como guia a grande invenção freudiana do inconsciente, enquanto estruturado pela linguagem. Demonstrou que para captar a realidade do crime é preciso referí-lo a um simbolismo, inscrito na linguagem, transmitido inconscientemente.
Para Freud duas formas estruturais estariam envolvidas no crime, o incesto e o parricídio, nas quais estariam toda a patogênese do Édipo. É com o mito do Totem e Tabu que Freud demonstrou, que o crime primordial - o parricídio, deu origem à Lei Universal.
Surge, a partir das experiências do totemismo, o Supereu, uma das estruturas psíquicas estabelecidas por Freud, a qual teria dentre outras funções, a missão de recalcar o édipo, uma atuação reativa contra as escolhas objetais inconscientes.
A morbidez do supereu seria, no entendimento de José Antonio, o fracasso da sua função, que só poderia ser entendido, no simbolismo do delinqüente como psicopatológico, a partir da significação social do edipianismo e da noção crítica do supereu.
Para Lacan não se deve buscar a explicação do ato delituoso e sim os processos pelos quais o neurótico adapta-se parcialmente ao real. E a psicanálise, pela mola da transferência, daria acesso ao imaginário do criminoso, que pode ser para ele a porta aberta para o real.
Programação Junho 2000
LÉXICOS PSICANALÍTICOS
Léxico I - Psicanálise
INTERFACE: Psicanálise e Criminologia
15/06 - A relação das estruturas psíquicas e os atos do "sujeito".
QUARTAS DO CAMPO LACANIANO - 20 HS
07/06 - Fórum: Debate sobre o Passe.
O passe : fracassos e medida dos sucessos.
Sônia Magalhães
14/06 - Sabor e Saber na articulação
Direito e Psicanálise "Responsabilidade do cidadão responsabilidade
do sujeito".
Expositora: Graça Belov Debatedora: Angélia Teixeira.
28/06 - Nietzsche a problemática do "eterno retorno".
Prof. Dr. Monclair Valverde (UFBA).
Obs. 1: as atividades de Pesquisa e Interface são abertas ao público previamente entrevistado e inscrito.
Obs. 2: os novos alunos dos léxicos deverão ser entrevistados
pela Comissão de Acolhimento. Contato com: Ida Freitas - 245 2305 e José Antônio - 351
7516/ 9979 3612.
SEMINÁRIO
CLÍNICA LACANIANA - O Momento de Concluir
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