O SINTOMA E O MAL ESTAR NOS DISCURSOS
Este ano de 2010, o Campo Psicanalítico de Ilhéus/Itabuna privilegiará como forma de estudo a modalidade do cartel. Esta escolha não foi ao acaso, mas decorrente de uma ampla discussão sobre o modelo de investigação e transmissão da psicanálise, e o discurso que deve sustentar a sua prática, inclusive da psicanálise em extensão. Não se poderia contrapor o discurso analítico frente aos demais (do mestre, do universitário, do capitalista) sem a utilização de um dispositivo psicanalítico como o cartel, cujo mecanismo visa, justamente, eliminar ou reduzir a figura do mestre, do saber absoluto e inquestionável na transmissão dos conceitos psicanalíticos.
Desde a sua invenção, há mais de um século, a psicanálise sempre se constituiu como uma teoria consistente, com um discurso preciso, determinado, inovador, ousado. Por isto mesmo, sempre foi criticada, tanto pelo discurso científico, por questionar os pressupostos da cientificidade estabelecida, quanto pelo discurso religioso, por subverter o discurso do mestre e colocar o homem como artífice e responsável pelo seu destino e suas escolhas.
Cento e dez anos depois, esta discussão se acirra e se desdobra. Primeiro, porque mais do que nunca os sujeitos buscam na ciência e na religião uma solução definitiva para o seu sintoma, para o seu mal-estar, prometida por esses discursos, e, segundo, porque neste impasse advém na cultura dominante o equívoco de supor para a psicanálise apenas duas saídas: reconhecer-se obsoleta, extinta, passando a ter apenas um valor histórico, ou submeter-se e adequar seus conceitos, seus pressupostos teóricos a estes discursos. Grupos religiosos fundam “escolas de psicanálise”, as neurociências buscam o Id, o Ego e o Superego no mapeamento do cérebro...O significante psicanálise passa a ser não mais uma teoria, mas um instrumento distorcido e deformado de intervenção.
A transmissão da teoria psicanalítica, ancorada em uma discussão sobre a posição e as possibilidades da psicanálise frente ao sintoma e ao mal-estar nos diversos discursos é, então, a proposta de estudos do Campo Psicanalítico de Ilhéus/Itabuna para 2010.
Coordenação: Simey Soeiro
O cartel é uma modalidade de trabalho de investigação inventada por Lacan. Em linhas gerais, consiste em um pequeno grupo de pessoas reunidas em torno de um tema em comum, que se organizam através de mecanismos especiais, visando, por um lado, um produto próprio de cada um dos componentes, e, por outro, o controle e a redução dos efeitos imaginários de grupo.
Um cartel pode se constituir tanto por praticantes da psicanálise, quanto por qualquer um que se interesse em estudá-la. Seu número de participantes, contudo, é restrito: no mínimo três e no máximo cinco, acrescentado do “Mais –Um” – elemento escolhido pelos cartelizantes dentre os membros do Campo, com a função de zelar pelo bom andamento do trabalho, assim como de manter a orientação lacaniana do cartel.
Cada cartel decide sua forma de trabalho e sua frequência, e tem duração máxima de dois anos, ao final dos quais deve ser dissolvido, evitando–se, deste modo, a inércia à qual estão sujeitos os grupos de estudo.
É com este dispositivo, estreitamente vinculado ao discurso psicanalítico, que propomos, este ano, organizar e orientar o funcionamento das atividades do Campo Psicanalítico de Ilhéus e Itabuna, e, assim, convidamos a todos os interessados a se engajarem em nosso programa de estudo através de um cartel. A cada mês realizaremos encontros entre os cartéis, em nosso “Círculo de cartéis com chocolate”– espaço para divulgação da produção e discussão das crises de cada cartel. E, ao final do ano, faremos uma Jornada de Cartéis, com o produto resultante da cada cartel.
Abaixo, os primeiros cartéis inscritos no Campo, e seus respectivos cartelizantes:
1 - A clínica e a contemporaneidade – Juliana Campos e Vitória Cabral.
2 - A psicanálise e outros discursos na contemporaneidade – Conceição Vita, Renata Raiol e Glivalda Falcão
3 - Transmissão: saber e poder – Marilene Araújo, Ana Walquíria Macedo e Carolina Biondi
4 - O que e como se transmite nos discursos – Simey Soeiro
OBS: Todos os cartéis estão recebendo propostas de adesão. Contato para informações com os cartelizantes (telefone e e-mail no final do programa).
Fundada por Sigmund Freud, a psicanálise é um campo do saber constituído por uma complexa teoria acerca do funcionamento mental. Surgiu a partir das investigações de seu criador, na tentativa de compreender os fenômenos psicopatológicos quando estes escapavam às afecções orgânicas e à medicina tradicional. Assim, ela se ocupa do fato do Inconsciente, é uma forma de tratamento para o sofrimento humano e possui teoria e método clínico próprios.
Em 2010, o Campo Psicanalítico Ilhéus - Itabuna oferece um Curso de Fundamentos da Psicanálise, onde serão tratados, ao longo de um ano, os principais ensinamentos de Freud, com acréscimos da releitura de Lacan, de modo a traçar um panorama introdutório dos conceitos centrais da teoria psicanalítica.
A proposta é aberta para estudantes, profissionais da área, profissionais afins e demais interessados neste campo do saber. O curso possui caráter teórico e não objetiva formar psicanalistas, uma vez que, com a psicanálise, vê-se que a formação do analista é permanente (não se esgota, portanto, no cumprimento de um plano de estudo e sua carga horária), distinta do modelo de formação das diversas áreas, sustentando-se sobre o delicado tripé da análise pessoal, estudo e supervisão.
Estes últimos e importantes temas sobre a formação da analista e regulamentação da profissão serão também abordados ao final do curso.
Data de início das aulas: 12de março de 2010
Término das aulas: 26 de novembro de 2010
Local: Escola Arco-Íris (Itabuna)
Dia(s) da semana: sextas-feiras
Horário: das 16:00 às 17:30hs
Carga horária: 45h (ano)
COORDENAÇÃO e CONTATOS:
Coordenação: Adriana matos
Fazendo jus ao que propõe o cartel – que reduz o lugar do mestre e da palavra final – e reafirmando uma prática do Campo Psicanalítico Ilhéus/Itabuna, teremos o espaço de interfaces e intercambio, visando a contribuição de outros campos do conhecimento na discussão e expansão dos conceitos estudados, assim como a intervenção de colegas do Campo Psicanalítico de Salvador, no sentido de ampliar os debates.
INTERFACE
30/4 – A transmissão na biologia – Dorival Freitas filho
24/9 – O discurso da ciência – Paulo Terra
INTERCÂMBIO
5/3 – Conferência de abertura do programa:
O sintoma e o mal-estar nos discursos – Marcus do Rio Teixeira
28/5 – O ser humano – Jairo Gerbase
13/8 – O mal-estar e o discurso familiar – Ida Freitas
29/10 – O eu e o Outro – Olga Sá
Às sextas-feiras, 16h00.
5/11 – Conferencista convidada: Angélia Teixeira
VALOR DA SEMESTRALIDADE
R$220,00 para todas as atividades do Campo Psicanalítico de Ilhéus/Itabuna
Contatos / informações com a comissão de acolhimento
Conceição Vita, Simey Soeiro e Vitória Cabral
Local de funcionamento das atividades:
Escola Arco Íris
Rua Rosineide 177 – Zildolândia
Tel (73) 3211-8274 e 3617-3174
CAMPO PSICANALÍTICO ILHÉUS / ITABUNA
Coordenação Geral: Juliana Campos
Secretária: Vitória Cabral
Coordenação de Cartéis: Simey Soeiro
Intercâmbio e Interfaces: Adriana Matos
Coordenação do curso de fundamentos:Conceição Vita, Carolina Biondi, Tiana Silva e Renata Raiol
Tesouraria: Conceição Vita